Samba do amanhã

Paulinho da Viola faz 70 anos fiel à sua filosofia de mirar apenas o futuro

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2012 | 02h11

Olhando para trás, foi tudo muito rápido. Dia desses, Paulo César Baptista de Faria ia para a escola com os amigos ouvindo Asa Branca pelas ruas de Botafogo. Pouco tempo depois, via homens entrarem em sua sala com cavaquinhos e bandolins para formarem uma roda e passarem horas ao lado do pai Cesar, violonista do Época de Ouro. Mais um tempo e Paulinho seguia o conselho do pai: vai trabalhar em uma agência bancária no centro do Rio de Janeiro.

Era então início de 1964 quando o escriturário Paulo, menino magrelo e acanhado, avista na agência em que trabalha um rapaz que jura conhecer de algum canto. Chega junto e puxa assunto. Era Hermínio Bello de Carvalho, que o chama para as rodas de samba em sua casa e lhe abre o universo. É lá que estão Zé Ketti, Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho e o mestre de todos, Cartola.

Seu pai reluta em dar a bênção do samba ao filho, mas Paulinho segue em frente e passa a compor. Quando faz sua primeira gravação com o grupo Voz do Morro, já íntimo e afilhado de Zé Ketti, um técnico do estúdio começa a questionar sobre a autoria das músicas. "De quem é essa?" "E essa?" Quando vem a vez de Paulinho dizer "é minha", o rapaz insiste: "Sei que é sua, mas qual é o seu nome para eu colocar o crédito aqui?" "É Paulo Cesar", diz Paulinho. A coisa não soou bem. E aí começou: "Mas isso não é nome de sambista". Dias depois, um jornal no qual o jornalista Sérgio Cabral assinava uma coluna trazia uma nota sobre o grupo dando o nome do novato que nem o novato sabia: "Paulinho da Viola". Foi tudo muito rápido. Tão rápido que o sambista nem considera passado. Aos chegar aos 70, completados segunda-feira, Paulinho considera estar ao lado de Cartola, Zé Ketti e Candeia. "Ao lado sim, à altura não", brinca. E aprende a fazer do tempo não um algoz, mas um aliado.

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