Samba ainda mais potente

Adriana Calcanhotto está de volta em show cada vez mais performático

ROBERTA PENNAFORT / RIO , O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2012 | 03h09

Adriana Calcanhotto não altera o samba tanto assim. Mas passado quase um ano de shows pelo Brasil, Europa e Japão, cantando repertório em que visita o ritmo, os temas e os signos do gênero, ela não se vê como sambista.

"Nunca me senti assim, mas como uma compositora muito influenciada pelo samba. Se eu digo que sou sambista, vou incomodar, e não quero... Meu ouvido acomoda tudo como samba. Não altero tanto, o samba segura muito mais do que isso!"

"Isso" é a conjunção da bateria peculiar de Domenico Lancellotti (sem prato, com um surdo deitado), do baixo de Alberto Continentino e do violão de Davi Moraes, a quem Adriana pediu socorro quando concluiu que um cisto na mão direita a afastaria de seu instrumento, inviabilizando uma turnê do CD O Micróbio do Samba.

Soma-se ao trio uma Calcanhotto meio Partimpim, feliz fazendo toda sorte de barulhinhos com seu aparato - secador de cabelo, xícaras de chá, MPC, "bagulhinhos eletrônicos de nomes estranhos, tipo thingamagoop", caixa de fósforo -, e bem mais teatral do que nos shows dos CDs anteriores. Micróbio volta a São Paulo (Sesc Pinheiros, de quinta a domingo) depois de um semestre infectando outros milhares de ouvidos. Adriana e sua rapaziada chegam ainda mais contaminadas. "O Cazuza dizia que se não fosse um cantor de rock'n'roll seria um pintor de rock, um bailarino de rock. Esse disco explicita a força da influência do samba em mim", diz a cantora gaúcha.

"Foi importante ver que a influência de descobrir Caetano, Paulinho (da Viola), por exemplo, foi diferente do Lupicínio. Ele sempre existiu, as pessoas que eu conheci quando comecei cantando na noite em Porto Alegre tinham trabalhado com ele. Eu antes não via esse impacto."

Lupicínio, de cujo discurso ela pegou emprestado o título do CD, está no momento mais dramático do show, o samba-canção Esses Moços, clássico de 1948: um facho de luz iluminando apenas o rosto de Adriana e o microfone antigo, comprado em Portugal, Davi ao violão elegante.

Foi no país que lhe é tão caro que a turnê ganhou força. Ainda acreditando que não conseguiria seguir sem o violão, a cantora se percebeu contente, ao lado dos amigos feitos irmãos, cantando aqueles sambas compostos ao longo de quatro anos, despretensiosamente. "O mais legal foi ver que eu estava gostando. Esse show tem muitas possibilidades. Todo mundo ouve o que o outro está fazendo, eu posso cantar o refrão duas ou três vezes que eles estão ali comigo."

Em breve à venda, o DVD do Micróbio, com registros de Salvador a Tóquio, da diretora Clara Cavour, mostra essa evolução. Dos primeiros ensaios, com Domenico ditando o ritmo batucando um palito num pote de louça com castanha, às viagens por paragens como Liubliana, na Eslovênia, e Rubigen, na Suíça - plateias para as quais samba é só o que se ouve num desfile de carnaval. Um especial de uma hora gravado no Teatro Tom Jobim, em outubro, será exibido pelo Multishow amanhã, às 21 horas.

Todo o Micróbio é apresentado por uma Adriana performática, que, assim, rememora momentos iniciais da carreira, mais de 20 anos atrás. Em Já Reparô, evolui sambando roboticamente. "Vou à Lapa decotada", diz o verso de Beijo Sem, e ela abre um botão da blusa. Já É, com Davi ao cavaquinho, sinaliza o momento carnavalesco, com confete jogado em seu rosto. Mais Perfumado, acredita, é a de identificação mais imediata com o público, seja qual for sua língua.

Paulinho entra em Argumento, a voz de Adriana filtrada por uma espécie de megafone. A essa altura do show, já é patente que o cavaco, o pandeiro e o tamborim não fizeram a menor falta.

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