Salzburg reinventa tradições

Com 90 anos, evento trabalha o equilíbrio entre o novo e o consagrado

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2010 | 00h00

Descendo a Getreidgasse, no centro de Salzburg, é a pequena multidão de turistas que entrega o interior do prédio de fachada amarela de traços comportados. Ali, no terceiro andar, você pode visitar o quarto em que nasceu Wolfgang Amadeus Mozart; dez minutos de caminhada depois, cruzando o Rio Salzach, uma outra residência, que abriga muitos dos instrumentos usados na infância pelo pequeno gênio.

Com pouco mais de 50 mil habitantes, Salzburg recebe uma cerca de 7 milhões de visitantes por ano - 5 milhões a mais que a média para cidades europeias de seu porte. Ser o local onde nasceu e cresceu Mozart ajuda - e muito. Mas, durante julho e agosto, outra atração coloca a cidade no mapa musical mundial: o Festival de Verão que, em 2010, completou 90 anos. E, da mesma forma que o culto a Mozart ganha sempre novos contornos, também o evento vive o embate entre a tradição e a necessidade de reinvenção.

Os números impressionam. São 192 concertos por edição, que atraem um público pagante de 249.730 pessoas, vindas de 72 países. A verba obtida com a venda de ingressos é 24, 5 milhões, quase metade do orçamento total, completado com patrocinadores privados - pessoas físicas e jurídicas. A média de ocupação dos teatros é 95%. "É um número expressivo. Mas, como administradora, eu preciso criar novo público antes de perder o antigo", diz a presidente do festival, Helga Rabl-Stadler. Entre as medidas tomadas, ela anualmente viaja o mundo encontrando possíveis patrocinadores e divulgando o conceito do festival.

É preciso, para tanto, ter um produto atraente a vender. A tradição, diz, ajuda - Salzburg é o retiro de verão da Filarmônica de Viena e, de lá, a partir dos anos 40, Herbert Von Karajan ditou muitos dos padrões da interpretação no século 20. Presidir o festival, porém, é buscar o equilíbrio entre as glórias do passado e o desejo de inovação, articulando a às vezes conservadora comunidade da cidade com a capacidade de atrair os principais artistas do cenário.

O momento atual é de transição. Jurgen Flimm está deixando a direção artística que, a partir de 2012, será ocupada por Alexander Pereira - em 2011, Markus Hinterhäuser, responsável pela programação de concertos, assume interinamente o posto. "Flimm quer provar que sua substituição foi precipitada; Markus quer mostrar que poderia ficar mais tempo na posição; e Pereira, por sua vez, vai chegar em 2012 com vontade de mostrar que os dois estão errados. O momento de transição, para a presidente, é um verdadeiro pesadelo", diz ela, sorrindo. "Mas, para o público, serão anos bem interessantes."

Sentado em um café nas proximidades do Mozarteum, Hinterhäuser vê uma mudança iniciada nos anos 90, após a morte de Karajan. "Ali começou a busca por um frescor na programação", diz. Buscou-se uma nova linguagem nas montagens de óperas, da qual é exemplo o Don Giovanni apresentado este ano, Mozart em nova leitura, que retira a ação do contexto original e leva ao palco temas como o consumo de drogas. "E uma preocupação maior com a música contemporânea, que acabou se tornando o centro do festival. O que temos tentado fazer é criar uma paisagem musical em que prevaleça o diálogo entre épocas, autores, estilos. Não se trata de negar a tradição, mas mantê-la viva. E isso se faz mostrando que toda música nova surge de questões que se coloca sobre a criação do passado e que a história da música, portanto, é algo que está em constante desenvolvimento."

Para Hinterhäuser, isso tem atraído novo público ao festival. "Com mais concertos, inclusive em espaços alternativos aos palcos principais, o que está acontecendo é algo interessante: jovens, antigos frequentadores, os diferentes públicos têm se aproximado perante a proposta de diversificação da programação. E isso é estimulante."

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