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Saltos do tempo

Vocês não acham que o tempo anda apressado demais?

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2014 | 02h06

Um poeta escreveu algo assim: o tempo jorra através da noite. Mais prosaico, eu diria que os dias e as noites correram com uma velocidade absurda nos últimos quatro anos.

Os arbustos da pracinha são árvores quase adultas e exibem flores amarelas e brancas. O filho que mal sabia somar e multiplicar já resolve equações complicadas de segundo grau; aquela menina mal solfejava e já gravou dois discos; um rapaz que vendia bombons na esquina tornou-se um discreto mendigo, caído na porta de uma farmácia.

Não encontrei na praça da República os nigerianos que vendiam tecido de algodão e estatuetas. Lembro que falavam português com bastante fluência e combinavam o preço do pano em língua africana. Comprei dois metros por vinte reais, e ali na 24 de Maio um ganense me ofereceu três metros do mesmo tecido por doze. Perdi uma graninha mas louvei a concorrência dos trabalhadores informais, que desconhecem o monopólio, a publicidade e as licitações fraudulentas.

Mas isso foi em 2013... Desde então o tempo deu cambalhotas e alguns amigos empobreceram. Quatro anos atrás o Turíbio jantava uma vez por mês num bistrô da Aclimação; hoje, ele espera o convite de uma alma bondosa para comer bolinhos de bacalhau no boteco da esquina. Mas os privilégios de alguns espertalhões continuam intactos, milhões de pobres continuam a pagar dízimo ao Grande Templo, os professores, médicos e enfermeiros da rede pública estão na pendura.

E como as pessoas ficaram grossas e mal-humoradas! Nessa época pós-moderna, até a arte da simpatia foi banida. Os moradores do prédio vizinho já nem dão bom-dia, são seres mais ranzinzas que Graciliano Ramos, mas se eles lessem Infância, seriam ranzinzas e menos incultos. Isso sem falar dos ladrões. Se até os mortos são assaltados, imagine os idosos. Sábado passado, no Largo do Café, eu ria da conversa de dois doidos sobre política e nem senti falta da minha bengala de pau-mulato, herança preciosa do meu avô. Fiquei um pouco desequilibrado, ou em equilíbrio instável, feito estátua de barro. Ali mesmo, no Largo, invejei um cego guiado por seu humilde cajado, a cabeça atenta aos gestos de um mágico que tirava mãos azuis e monstruosas do bolso da calça. Depois essas mãos receberam moedas do povo e de repente sumiram.

O tempo enlouqueceu ou traiu o Brasil? Ah, o tempo e seus mistérios... Musa volúvel que move poetas e romancistas, destrói casamentos aparentemente sólidos, estremece repúblicas fortes, repara sete injustiças em cada século e multiplica iniquidades todos os dias! O tempo derrota todos e zomba da nossa esperança, às gargalhadas.

Em julho, na Copa do Mundo na Rússia, a seleção brasileira foi um fiasco. E agora, neste outubro de 2018, dois candidatos enfrentam-se com impropérios, prometem mundos e fundos, que só cabem em péssimas ficções ou nas histórias da carochinha.

Quatro anos se passaram e ainda ouço a faxineira dizer que sua filha não tem aulas numa escola estadual do Jardim São Luís, e ela, a faxineira, tem que esperar seis meses para fazer exames médicos. A pobre mulher, que era crente, virou uma descrente radical.

Espero não escrever essa mesma crônica em 2022. Até lá, muitas coisas terão acontecido, ninguém sabe dizer quais. Mas gostaria de rever aquela cena no Largo do Café: um cego fascinado por mãos azuis e monstruosas, enquanto dois doidos conversam sobre política. Magia e loucura em plena manhã de um sábado brasileiro. Haverá algo melhor?

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