Salman Rushdie fala da intolerância religiosa

Enquanto a religião for tratada como assuntogovernamental em diversos países, a incidência do terrorismo continuará grande no mundo. A opinião é do escritor anglo-indianoSalman Rushdie, que chegou hoje ao Brasil como principal convidado da 11.ª Bienal Internacional do Livro, aberta na quintafeira. "O ideal é separar Igreja do Estado" disse o autor, que participa neste sábado de um encontro com o público, no Riocentro, onde a intolerância religiosa será um dos assuntos dominantes. Rushdie conhece como pouco os efeitos maléficos de tal perseguição. Em l989, o aiatolá Khomeini, do Irã decretou o fatwa,perseguição religiosa com intenção de morte, por conta da publicação do livro Versos Satânicos, considerado anti-mulçumano. Apartir daquela data e até l998, quando foi revogada a sentença de morte, Rushdie foi obrigado a dizer em lugares secretos emLondres, além de estar constantemente acompanhado de seguranças."Hoje, meu único temor são as más críticas aos meus livros", brincou o escritor, que dispensou segurança particular oferecidapela organização da Bienal. Rushdie recusou inclusive um veículo blindado para passear no Rio amanhã, quando terá o dia defolga. E nem mesmo a violência carioca, que atinge hoje níveis insuportáveis, ameaçou sua vinda ao Brasil. "Não sou como osamericanos, que, se acontece algumato terrorista em Paris, cancelam todas as suas viagens".Rushdie observou que o fanatismo é fruto de manifestações políticas. O acirramento no Irã, por exemplo, surgiu a partir domomento em que a corrupção do Xá Reza Parlevi, apoiada pelos Estados Unidos, tornou-se insustentável aos muçulmanos. "Isso provocou o fanatismo, que se tornou institucional", comentou. "Atualmente, a Arábia Saudita financia escolas do Alcorão em todo o mundo árabe onde as crianças são criadas dentro dofundamentalismo religioso." O escritor anglo-indiano comentou também sobre o aumento da intolerância americana, provocado pela politica do presidenteGeorge W.Bush."O mundo aponta esse fanatismo como se fosse algo que dominasse todo o território americano, o que não éverdade", disse. "Há muitos cidadãos que não votaram em Bush, o que ficou comprovado com as manifestações contra a guerrado Iraque, que uniram mais pessoas que aquelas que protestaram contra a guerra do Vietnã. "A ilusão de uma maciçaintolerância americana aos olhos do mundo, é resultado da imagem vendida pelo governo Bush e também pelo silêncio daoposição." O mesmo aconteceu na Inglaterra durante o mandato de Margareth Tatcher: todos diziam que ela representava o país,mas, quando os britânicos se cansaram de seu governo, simplesmente a tiraram do poder por meio das eleições."Rusdhie acredita que o mesmo vai acontecer com Bush, refletindo o que se passou com seu pai: insatisfeitos com sua politica para oOriente Médio durante a guerra do Golfo, os americanos não elegeram seu sucessor. O escritor contou que, quando aconteceram os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, sentiu vontade de dizer aosamericanos que eles acabavam de entrar para um clube do qual ele já era sócio. "Desde então minha obra deixou de serinteresse para os analistas, que preferem me ouvir falar dos problemas do fundamentalismo".Rusdhie viaja para São Paulo na segunda feira, quando, as 20 horas, no MASP, participa de um encontro com leitores promovido pela Companhia das Letras, que está lançando seu romance Fúria. Os interessados em participar da palestra podem ligar hoje entre 9 e 13 horas e na segunda, entre 9 e 15 horas, para os telefones 3032-6143 e 3032-6856 e fazer sua reserva, pois ainda há convites.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.