Salles on the road

Na disputa pela Palma de Ouro no Festival de Cannes, filme adaptado do romance de Kerouac aborda a gênese da beat generation

LUIZ CARLOS MERTEN, ENVIADO ESPECIAL / CANNES, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2012 | 03h12

Da morte do pai à última fronteira da América, que os personagens de Walter Salles tentam em vão desbravar, On the Road é sobretudo a dilacerante história de uma amizade rompida (na realidade), mas que se eterniza na arte. Agora que o cabo das tormentas foi ultrapassado, pode-se respirar fundo e dizer - havia motivos de sobra para temer pela adaptação do livro mítico de Jack Kerouac. O primeiro, ou principal motivo, é justamente porque se trata de uma obra mítica, cuja fama sobrepuja suas qualidades literárias.

On the Road não é o livro mais bem escrito do mundo, embora sua escrita "musical" faça com que os diálogos pareçam embalados em jazz, e isso é muito interessante. O livro também tem muitos personagens, e essas figuras transfiguradas pela arte são reais e deram origem a um movimento que marcou época e teve desdobramentos na história da cultura norte-americana. Sal, aliás, Jack Kerouac, Dean/Neal Cassidy, Carlo/Allen Ginzburg viraram faróis da chamada beat generation, mas em On the Road eles ainda são jovens num relato iniciático. Toda a grande história veio depois, como o jovem Guevara que também se inicia na estrada em Diários de Motocicleta, pode estar gestando ali o Che, mas ele só surgirá depois.

Em Diários, Walter Salles já abordara o mito antes mesmo de sua criação, e isso lhe deu as chaves para fazer On the Road. Na coletiva após a exibição do filme para a imprensa, ontem pela manhã aqui, no 65.º Festival de Cannes, o produtor Roman Coppola, filho de Francis Ford, lembrou a complicada gestação do filme, incluindo os anos que Salles passou na estrada, buscando locações e criando o documentário que, sem dúvida, o ajudou a sedimentar uma visão mais aprofundada do projeto.

Está havendo aqui em Cannes um clima de já ganhou em torno ao novo Michael Haneke, Amour/Amor. Pode ser que ele tenha respaldo no júri presidido por Nanni Moretti, mas, mesmo na eventualidade de que isso venha a ocorrer, não significará, necessariamente, que Amor é o melhor filme da competição. Poderá ser para esse júri, mas os melhores filmes, por enquanto, continuam a ser o de Christian Mungiu, Beyond the Hills, um pouco menos o de Alain Resnais, Vous n'Avez pas Rien Encore Vu, e um pouco mais, agora, o de Walter Salles.

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