Salinger, as cartas não mentem

Em Nova York, o recluso autor de O Apanhador no Campo de Centeio é revelado em mostra que cobre um período de 40 anos de correspondências

Tonica Chagas, ESPECIAL PARA O ESTADO, NOVA YORK

07 de abril de 2010 | 08h20

Os originais. São 10 cartas e um cartão-postal endereçados ao então amigo Michael Mitchell e que serão apresentadas em duas etapas, no Morgan Library. Foto: Robert Stlarik/NYT

 

O Apanhador no Campo de Centeio fez de J. D. Salinger (1919- 2010) um dos escritores americanos mais originais, mais lidos e, absolutamente, o mais recluso. Depois do lançamento do romance, em 1951 - o primeiro e único publicado por ele e que vendeu cerca de 65 milhões de cópias mundo afora -, Salinger só publicou um conto, Hapworth 16, 1924, relato em forma de carta que tomou quase toda a edição de 19 de junho de 1965 da revista The New Yorker. Desde 1953, vivia protegido no anonimato da pequena e conservadora Cornish, em New Hampshire, onde morreu em janeiro deste ano. Ali era tratado apenas por Jerry e os moradores adoravam dar falsas informações para não deixar gente de fora se aproximar daquele vizinho que frequentava jantares da igreja. Ali cultivava a fama de odiar a fama e o mistério de ter ou não ter escrito algum outro livro.

 

Escreveu, sim. "Tenho 10, 12 anos de trabalho empilhado por aqui. Tenho dois roteiros em particular - livros, na verdade - que venho juntando e selecionando há anos", confirmou o escritor numa das cartas dele para Michael Mitchell, seu ex-vizinho e o pintor que produziu a capa da primeira edição de O Apanhador. Exibidas pela Morgan Library, em Nova York, dez dessas cartas e um cartão-postal são os primeiros textos de Salinger abertos ao público depois da morte dele. A confirmação do que sempre se especulou mas só agora se tem certeza, de que Salinger escreveu outros livros no seu refúgio em Cornish, aparece na carta para Mitchell escrita em 16 de outubro de 1966. Como ele sempre manteve a disciplina de escrever diariamente, é de se imaginar o volume de textos inéditos que vem por aí. É só uma questão de tempo e, talvez, alguns recursos jurídicos.

 

Autógrafo. As cartas para Mitchell, que morreu no ano passado, datam de maio de 1951 a janeiro de 1993, quando a amizade de mais de 40 anos com o escritor acabou, aparentemente por causa do dito livro. Na última, Salinger disse não ao pedido feito por Mitchell para lhe autografar uma cópia da primeira edição do romance. Acredita-se que o pintor tenha ficado danado da vida com isso e, no ano seguinte, vendeu as dez cartas e o cartão-postal do ex-amigo a um negociante de livros raros da Califórnia, de quem um colecionador comprou por cerca de US$ 35 mil e, em 1998, doou à Morgan Library.

 

Em obediência à privacidade exigida por Salinger - que valeu extenuantes processos movidos por ele para mantê-la e chegou ao ponto de cortar relações com a própria filha, Margaret, que publicou o best-seller Dream Catcher: A Memoir, sobre o pai -, a Morgan nunca permitiu que nem seus funcionários mais graduados lessem aquela correspondência. Com a morte do escritor, a restrição deixou de existir, como argumenta Declan Kiely, chefe do Departamento de Manuscritos Literários da Morgan. Para expô-las na sala principal da Morgan, Kiely dividiu as cartas em dois lotes.

 

Quatro ficam em exibição até o dia 11; as demais e o cartão-postal serão apresentados entre 13 de abril e 9 de maio. A correspondência agora está liberada para estudos mas, por precaução quanto a direitos autorais, a Morgan não permite que seja reproduzida.

 

O estilo de quem criou o ritmo rápido de falar, a sagacidade, a boca suja e o humor do adolescente Holden Caufield, que narra O Apanhador no Campo de Centeio na primeira pessoa, é o mesmo nas cartas que Salinger assinava como Jerry ou apenas J. Chamava Mitchell e Bet, a então mulher do pintor, de "Buddyroos", termo afetuoso usado por Caufield. Quase todas datilografadas, falando de família, amigos, viagens, trabalho e o isolamento do escritor em Cornish, as cartas revelam quatro décadas da vida dele. Em pelo menos uma, comenta dúvidas que tinha quanto à qualidade do seu trabalho, mas em nenhuma esclarece motivos pelos quais nunca mais quis publicar nada.

 

Além de confirmar a teoria de que o escritor deixou livros inéditos, as cartas a Mitchell contradizem a ideia de ermitão excêntrico. Elas trazem referências a fatos políticos ou celebridades da época em que foram escritas o que, segundo Kiely, demonstra que ele sempre esteve ligado ao mundo além de Cornish, mesmo depois de ter se enfurnado lá. A primeira, escrita apenas semanas antes da publicação de O Apanhador , foi mandada de Londres, para onde Salinger foi a fim de evitar a publicidade que viria com o lançamento do romance. Em várias demonstra quase ódio por admiradores e candidatos a biógrafos que tentavam se infiltrar na sua vida. Na última, diz a Mitchell que não seria mais capaz de autografar um livro porque isso o deprimia muito e poderia resultar em algo ruim. Estima-se que uma cópia autografada de O Apanhador alcançaria hoje preço em torno de US$ 100 mil.

 

Trechos de cartas

NO TEATRO

22 de maio de 1951

O escritor estava em Londres e foi ver Vivien Leigh e Laurence Olivier em César e Cleópatra.

"Muito bom, bem puro. O público daqui é tão estúpido quanto o de Nova York, mas as produções são muito melhores. Depois do teatro, Hamilton e eu jantamos na casa de Olivier, em Chelsea. Casinha maravilhosa."

 

OS FILHOS

16 de outubro de 1966

Relato de visita que fez a Nova York com Peggy e Matt, os dois filhos, para levá-los ao dentista.

"Adoro ficar sentado na cama lendo e olhando seus corpos adormecidos no quarto. Adoro ir a qualquer lugar com eles."

 

CASAMENTOS

6/abril/ 1985

Casado três vezes, fala da aptidão para a vida a dois.

"Bode velho que sou, de vez em quando ainda proponho casamento a quem passa pela minha janela."

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