Sala São Paulo recebe um dos concertos mais audaciosos de 2012

Ensemble Intercontemporain ofereceu leitura de Cassandre, de Michael Jarrell, comandado pelo regente Jean Deroyer

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2012 | 03h10

SÃO PAULO - Uma tribo diferente misturou-se nesta segunda-feira, 2, com o público habitual de assinantes da Sociedade de Cultura Artística no hall da Sala São Paulo. Jovens músicos e conhecidos compositores em quantidade. Explica-se: este foi provavelmente o mais audacioso concerto de 2012 na Sala São Paulo. Uma aposta na música contemporânea. Em vez de curtas peças ensanduichadas entre obras-primas do cânone do passado, só música viva. Ainda bem que o público cativo da Cultura Artística saiu, ao final, tão recompensado quanto os contemporâneos radicais. Como se deu o milagre? Um repertório atraente e o nível de interpretação superlativo do Ensemble Intercontemporain, comandado pelo regente Jean Deroyer. A música contemporânea, quem sabe mais do que a tradicional, precisa de intérpretes superiores, como insistia Adorno - é o que provou o Intercontemporain.

Os 13 minutos iniciais não foram animadores para a banda conservadora. É o que dura a excepcional La Barque Mystique, do espectralista Tristan Murail. Mesmo assim, provocou surpreendentemente bem poucos desistentes, que se retiraram discretamente ao final da peça - nada comparável ao êxodo maciço dos anos 90, quando o Intercontemporain tocou pela primeira vez em temporada da Cultura Artística. É um exemplo acessível de música espectral, movimento iniciado por Gérard Grisey e Murail nos anos 70, que repensa a música a partir da natureza do fenômeno sonoro, levando em conta a crescente sofisticação das pesquisas acústicas. São só cinco instrumentos - flauta, clarineta, piano, viola e violoncelo -, que no entanto criam um clima de ambição "orquestral", tamanho o talento do compositor para uma ampliação da paleta harmônica e timbrística do fenômeno sonoro, com direito a fiapos melódicos aqui e ali.

A entrada da atriz Marthe Keller e dos 31 instrumentistas do Intercontemporain no palco para o monodrama Cassandre, de 1993/94, do suíço Michael Jarrell, magnetizou imediatamente o público. Ninguém despregou o olho de sua performance extraordinária como narradora/recitante por praticamente uma hora. A obra fica a meio caminho entre o Erwartung e o Pierrot Lunaire de Schoenberg, onde a soprano solista canta, e os melodramas de um Richard Strauss, como Enoch Arden, onde a recitante é uma atriz que narra os acontecimentos acompanhada por piano.

Cassandra, filha dos reis Príamo e Hécuba, de Troia, ganhou do apaixonado Apolo o dom da profecia; mas ela não corresponde ao seu amor; Apolo anula o dom, fazendo com que ninguém acredite em suas profecias. Jarrell baseou-se no ótimo livro da escritora feminista Christa Wolf, que mostra Cassandra em suas últimas horas de vida - diz ter se impactado com o desespero desta mulher só, esperando a morte, depois de ter visto a morte dos pais e a destruição de Troia, que ela previra.

Os acontecimentos se superpõem, com o passado se intrometendo no presente, e vice-versa, num fluxo inconsciente que aflora desordenado ao nível da consciência. Assim, a personagem se constrói a partir de muitas vozes, contraditórias entre si. E o vínculo mais firme, a liga entre estas "vozes simultâneas", é teoricamente a música.

É uma "ópera falada", diz Jarrell. E o texto de Philippe Albéra coloca que não deve haver construção dramática da personagem, a performance precisa impor-se como ritual. A fala de Cassandra não é psicologizante; deve fugir da expressividade da representação e pautar-se pelo ritmo da música.

Nem sempre, porém, o que o compositor deseja acontece na interpretação. Marthe Keller capturou dramaticamente a atenção do público, a ponto de a música passar praticamente desapercebida. Ela funcionou de modo ilustrativo, como excelente trilha sonora do monólogo. Sei que isso pode soar como ingenuidade ou atrevimento. Qualificar a música de Jarrell apenas como trilha sonora bem feita pode chocar os mais radicais. Mas foi assim que ela funcionou para o grande público, que não arredou pé justamente porque se "emocionou" pra valer com o drama da pitonisa à beira da morte. E saiu repetindo "que fantástica atriz!".

Crítica

João Marcos Coelho

ÓTIMO

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