Saint Laurent, ele pôs o smoking no armário feminino

Poucos trajes agregam tanta malícia, inteligência e poder em apenas alguns metros de tecido

Deborah Bresser, Jornal da Tarde

01 de junho de 2008 | 21h51

Toda mulher que anda por aí vestindo calça comprida e, mesmo assim, se acha extremamente feminina, deve isso a esse senhor chamado Yves Saint Laurent. Entrar no guarda-roupa masculino e sair de lá com idéias para vestir mulheres pode parecer muito óbvio hoje. Mas em 1966, quando Saint Laurent apresentou a primeira versão do célebre smoking feminino, apresentando uma blusa transparente e uma calça masculina, não era. "Le smoking’ virou a impressão digital de Saint Laurent. Depois disso, o traje passou a desfilar em todas as coleções do estilista.E marcou para sempre uma nova forma de as mulheres se vestirem. Se Chanel havia dado liberdade às cinturas e quadris, Saint Laurent deu poder ao armário feminino.   Trajetória do estilista em imagens  Desfile do estilista em 1962     Exposição mostra a obra de Saint Laurent  Entrevista com Saint Laurent (em francês)    Para a inglesa Suzy Menkes, editora do "International Herald Tribune", o smoking foi transformador: "Hoje as mulheres andam normalmente de terno e calça comprida. Isso parece normal, cotidiano, mas na época a mulher era proibida de entrar num restaurante ou num hotel. O smoking, usado até hoje, foi uma provocação sexual, dirigido à mulher que queria ter um outro papel."   Que o diga a atriz alemã Marlene Dietrich, que fez do terninho seu emblema. Marlene usou o figurino no filme Marocco, em 1932, e sacudiu o público com cenas picantes. Ao zombar das convenções - pois as mulheres da época não usavam calças - a atriz ajudou a mudar uma visão ultrapassada que vigorava na época.   Mas foi só com YSL que o terninho abalou e sacudiu de vez as estruturas da moda. Poucos trajes agregam malícia, inteligência e poder em alguns metros de tecido. As mulheres sabem disso. A imagem da modelo Vibeke Bergeron em foto de Helmut Newton, sensual e sofisticada, dentro de um terno Saint Laurent, marcou época.   Saint Laurent fez história não só ao assumir, como diretor artístico, a maison Dior, quando, já em seu primeiro desfile, rompeu com as cinturas de vespa ao apresentar a linha Trapézio, lá em 1958. Quase um escândalo. Substituído em 1960 por Marc Bohan, Yves Saint Laurent criou a sua própria casa em 1961, em parceria com Pierre Bergé. Um ano depois, a dupla lançou a rede de butiques Rive Gauche, de "prêt-à-porter", ou roupas prontas para usar. Juntos, um criador, outro gestor, construíram um império (alta costura, pronto a vestir, perfumes, lojas), que em 1993 passou para as mãos do grupo industrial Elf-Sanofi.   O "príncipe" se habituou a transformar suas coleções em acontecimentos. Há relatos famosos de mulheres vestindo terninhos Saint Laurent que tiveram a entrada negada em restaurantes e hotéis em Londres e Nova York. Para se impor como o maior costureiro de sua época, mais de uma vez usou a arte como inspiração, fazendo coleções celebrando Andy Warhol, Mondrian e Tom Wesselrnan nos anos 60, Picasso nos anos 70, Van Gogh e Bonnard nos anos 80. O próprio Saint Laurent escandalizou quando posou nu em 1971, só de óculos, para promover seu perfume. Mas também sabia encarnar o classicismo absoluto, tendo como embaixatriz Catherine Deneuve. Herdeiro de Chanel e Balenciaga, ele se manteve fiel a essas linhas que não possuem qualquer detalhe em excesso: "a elegância é urna maneira de se mover".   Em 1999, a casa foi dividida em duas: o pronto a vestir e os perfumes ficam com o grupo Gucci (filial de Pinault-Printemps-Redoute-PPR) e a alta costura passa para a Artémis, a "holding" pessoal de François Pinault, o patrão da PPR, até ao encerramento da casa em outubro de 2002, quando se despediu das passarelas apresentando no Centro Georges Pompidou um desfile retrospectivo de seus 40 anos de criação. Dois anos mais tarde, criou a fundação Pierre Bergé-Yves Saint Laurent, onde pôde acompanhar até ao fim a sua obra.

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