Saint Laurent despede-se hoje com desfile em Paris

Yves Saint Laurent, 65 anos, o maior estilista da segunda metade do século 20, apresenta hoje, em Paris, sua última coleção de alta costura, após 40 anos de atividades no ramo da moda. A maison, após a entrega dos pedidos, irá fechar as portas. O descanso do guerreiro representa o fim de uma era.Além de possuir um histórico perturbado por drogas, álcool, depressão e estresse, YSL, sigla como ficou conhecido, começou a demonstrar insatisfação quando sua empresa foi vendida, em 1998, para o grupo italiano Gucci, de Domenico Del Sole, e o texano Tom Ford, diretor de criação do grupo, responsável pelo estilismo da Gucci, começou a desenhar a Yves Saint Laurent Rive Gauche, prêt-à-porter feminino da marca. A St. Laurent coube então, através da milionária negociação, a responsabilidade pela criação dos modelos de alta costura de sua maison.No dia 9 de janeiro ao anunciar sua saída do mundo da moda, YSL fez, apesar de sua conhecida timidez, um pequeno resumo de sua contribuição à evolução dos costumes. "Durante todo esse tempo, tenho razões para acreditar que criei o guarda-roupa da mulher contemporânea e que meu esforço contribuiu para a transformação de uma era. Meu trabalho foi feito através das roupas, certamente menos importantes que a música, arquitetura, pintura e outras expressões artísticas. Mas sinto-me orgulhoso de ver mulheres de todo o mundo usando calça comprida, terno e blazer."Apesar de viver a maior parte do tempo isolado do mundo, trancado em seu ateliê com seus fantasmas estéticos, arte da melhor qualidade e um círculo fechado de velhos amigos, Yves Mathieu Saint-Laurent desde o início demonstrou tino para prever os novos caminhos da moda. Mas faro afiado, vasta cultura, conhecimento técnico e gosto impecável não foram só o que o ajudaram em sua trajetória. Por trás do gênio, seu sócio de sempre, inicialmente seu amante, o fiel Pierre Bergé, um ás na administração dos negócios e na insegurança patológica de YVL.Estilo incomparável - Desde o início de sua sensacional carreira ao ingressar na maison Dior, o mais importante nome da moda então, YSL ganhou confiança do mestre. Com apenas dois anos de casa, em 1957, com a morte de Christian Dior, foi transformado em diretor artístico da grife responsável, na época, por quase 50% das exportações da França na área de moda. Saint Laurent tinha 21 anos.Os jornais previram uma queda nas exportações francesas. Aquele "rapaz tímido com jeito de contador ou engenheiro químico" não conseguiria levar adiante a moda francesa, bradavam os jornalistas. Mas em janeiro de 1958, o jovem YSL lança a coleção Trapézio, já revelando seu faro e um pouco do joelho feminino. Um sucesso.Na realidade, tratava-se de vestidos em formato de trapézio, abolindo a cintura marcada, seguindo o raciocínio de Dior, que havia apresentado um único vestido reto, sem cintura marcada, em sua última coleção no outono de 1957. Logo Dior, que havia imposto por dez anos a ditadura da cintura de pilão...Mas YSL sabia que era um presságio, que afinal resultou no vestido tubinho e na minissaia, ambos símbolos do vestuário dos anos 1960. Em 1959, ele cria seus primeiros figurinos de teatro, uma de suas paixões, para a companhia de balé de Roland Petit, que fazia Cyrano de Bergerac, de Molière. Dois anos mais tarde, já com Pierre Bergé, YSL processa a Dior e os dois sócios abrem a maison Yves Saint Laurent com uma coleção aclamada pela imprensa. "Os melhores tailleurs desde Chanel", segundo a revista americana Life. Madame Arturo Lopez-Wilshaw, uma das mulheres mais elegantes e ricas da época, adquiriu o pretinho n.º 0001. Éra 1962. Começava a revolução no guarda-roupa feminino.Em 1983, o Metropolitan Museum de Nova York apresentou uma grande retrospectiva de sua obra, a exposição Yves Saint Laurent, 25 anos de design, a primeira homenageando um estilista ainda vivo, visitada por um milhão de pessoas. Dois anos mais tarde, pelas mãos do presidente François Miterrand, Yves Saint Laurent recebeu a medalha de Cavaleiro da Legião de Honra,, a mais alta comenda da França. E hoje ele dá seu adeus à moda, que ele tanto amou e revolucionou com alfinetes, tecidos e seu incomparável estilo.

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