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Humberto Werneck
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Saindo do armário

Já contei a história de um chefe de família de minhas relações que via no menor prazer um pecado - mas em cujo armário se veio a descobrir (fulminado por um derrame, o camarada estava fora de combate), camuflada atrás dos jaquetões, uma profusão de barras de chocolate que ele comia escondido de si mesmo. Não foi só: de uma gaveta até então indevassável, saltou uma família paralela, materializada em fotos, recibos de mensalidades escolares e prestações de eletrodomésticos. Como elemento revelador, sou mais o chocolate.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2013 | 02h22

Também no armário do meu pai, um guarda-roupa de madeira escura, eu costumava encontrar (fuçador, minha mãe me chamava de "quati") modestas provisões de chocolate amargo da Bhering. No caso, porém, a guloseima (papai usava esta palavra) estava sempre à vista - era o quati abrir a porta e topar com a barra, virgem ou já encaminhada, envolta em sua embalagem negra.

Havia outros atrativos no tesouro, digo, no guarda-roupa do meu pai. Sobre ele, pegava poeira uma Flaubert, carabina calibre 22 que na adolescência me seria permitido utilizar. Na prateleira mais alta, ao lado de uma gaita de boca, jazia uma pistola Mauser, comprada como precaução na época em que nosso bairro era um ermo, e que, suponho, jamais cuspiu uma bala.

Mais à mostra, havia um frasco de colônia inglesa Yardley, da qual fiquei sendo o único usuário, pois meu pai, só nesse sentido, não era flor que se cheirasse. Não ligava para "essas coisas" - coisas essas que englobavam tudo o que ele vestia e calçava. Ao contrário do camarada do estoque de chocolate, não vinha com discursos moralistas, mas, como tantos machos de seu tempo, não se permitia preocupações com a aparência. Era um pouco para pirraçar mamãe que ele às vezes combinava cinto preto com sapato marrom. Seus ternos, à beira do lamentável, eram feitos pelo Clodoaldo, provavelmente o pior alfaiate de quantos tesouravam em Belo Horizonte. O que, para meu pai, não passava de detalhe irrelevante: mais importante que a qualidade do corte era o Clodoaldo ser "uma boa pessoa". Quando, aos 12 anos, precisei de meu primeiro terno, a mamãe não lhe deu tempo de sugerir: "O Clodoaldo, não!" E lá fui eu com o elegante vovô Santos rumo à Casa Guanabara.

Do outro avô, pai de meu pai, que não cheguei a conhecer, na família dizia ter sido um homem isento de vaidade. Varão de Plutarco!, ouvi exclamar um dos tios. Que diabo seria isso?, me perguntei, imaginando se teria algo a ver com aquele busto de bronze entre as árvores da praça Hugo Werneck, onde nasci. Busto, aliás, que em dias mais recentes desapareceu. Papai chegou a crer que tinha sido carregado por ladrões de metais, apenas menos ambiciosos do que os que fundiram o ouro da Taça Jules Rimet. Faria sentido, num país onde tanto quanto as montadoras prosperam as desmontadoras. Derreteram vovô, concluí quase melancólico. Mas não, de repente lá estava ele de volta, brilhante como terá sido em vida o homenageado.

Cresci achando que o vovô Hugo se vestia no Clodoaldo ou similar - até ler, já taludo, o que sobre ele escreveu o ex-aluno Pedro Nava. Em Beira-Mar, páginas e páginas são dedicadas a fustigar (mas também a louvar) o antigo mestre, de quem o memorialista foi admirador antes que um incidente na faculdade de medicina terminasse num estremecimento sem remédio. Contas feitas, o que salta desse livro é um retrato muito verossímil do avô desaparecido dez anos antes de meu nascimento.

Devo a Pedro Nava - e tive ocasião de lhe agradecer - o ter-me dado, em troca do busto de bronze, um avô de carne e osso. Pena eu não ter conseguido convencer meu pai a ler as passagens nas quais transparece, muito vívido, o herói que ele perdeu às vésperas de seus 16 anos. Figura à qual não faltava, descobri encantado, uma dose de legítima vaidade: conta Nava que era possível acertar os relógios pela pontualidade com que, a caminho do consultório, o professor Hugo Werneck fazia escala no Giacomo para renovar o brilho das botinas. Nem preciso dizer o quanto essa revelação veio confortar um neto que, menino e adolescente, sentia no ar uma condenação pesando sobre quem, como ele, ousava ligar para "essas coisas".

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