Saindo de cena mais cedo

"Invencível." Se não descumprir a promessa de nunca mais escrever livros, confidenciada à revista francesa Les Inrockuptibles (leia a íntegra da entrevista na página 4 desta edição), essa terá sido a última palavra da última obra ficcional de Philip Roth. O invencível, no caso, é Bucky Cantor, o lançador de dardos de Nêmesis, não o autor do romance, confessamente vencido pelo desencanto e pelo cansaço. O que se esperava para Roth em outubro era o Nobel de Literatura, não essa aposentadoria precoce, que só não deve ter entristecido a feminista australiana Carmen Callil, que em maio do ano passado se demitiu do corpo de jurados do prêmio Man Booker International por discordar da escolha de Nêmesis pelos outros dois jurados.

SÉRGIO AUGUSTO,

17 de novembro de 2012 | 02h31

 

Aparentemente Roth (79 anos, 31 livros publicados e quase todos os grandes prêmios literários da América) estaria em jejum ficcional desde 2009, enfurnado numa casa em Connecticut, alheio a distrações e compromissos sociais, ocupando-se unicamente da arrumação de seu arquivo pessoal para melhor usufruto de seu biógrafo, Blake Bailey. Seu testamenteiro já sabe o que fazer depois que ele morrer: fogo em toda a papelada íntima. O que importa já está guardado na Biblioteca do Congresso.

 

Quem leu Fantasma Sai de Cena, publicado em 2007, fez as ligações cabíveis com a reclusão de seu alter ego Nathan Zuckerman, que, três anos depois dos atentados de 11 de setembro, trocou Manhattan por uma casa rural nos montes Berkshire, na Nova Inglaterra, onde, desprovido de televisão, celular, DVD e computador, ausentou-se por completo do mundo e do momento presente, "sem nenhuma sensação de perda - apenas, no início, uma espécie de ressecamento interior".

 

Fazia algum tempo que Roth ruminava a ideia de cortar seu "fanático hábito de escrever" e, como Zuckerman, sair de cena. Não porque as letras ardessem ou dançassem diante de seus olhos, como acontecia com o velho Jakob von Gunten de Robert Walser, ou porque tivesse perdido a faculdade de pensar ou de falar coerentemente de qualquer coisa, como o Lorde Chandos imaginado (e aposentado) por Hofmannsthal, mas porque, a exemplo do ator de seu penúltimo romance, A Humilhação, sentia ter perdido a magia e a autoconfiança. E, mais do que isso, seu antigo envolvimento vital com a América. "Eu a vejo pela TV, mas não vivo mais nela."

 

Enquanto nela viveu, retratou-a, quase sempre, de forma magistral. Da Era Roosevelt (Complô Contra a América, Nêmesis) à Era Bush (Fantasma Sai de Cena). Chegou à Era Clinton (A Marca Humana), mas ficou nos devendo a Era Obama.

Outro fator determinante para sua deserção foi a vertiginosa queda, nos últimos tempos, do hábito da leitura, a seu ver condenado a virar uma espécie de culto, "um hobby minoritário", nos próximos 20 anos. "As telas nos derrotaram", desabafou numa entrevista, sem aliviar a barra do Kindle e similares.

 

Também desgostoso com os rumos da cultura do seu tempo, Monsieur Teste, o alter ego de Paul Valéry, não só optou pelo silêncio, de uma hora para outra, como atirou toda sua biblioteca pela janela. Roth não chegou a tanto. Preferiu ocupar seu ócio com a releitura de Dostoievski, Joseph Conrad, Turgenev, Hemingway e outros escritores de sua predileção - outro ponto em comum com o Zuckerman de Fantasma Sai de Cena - e, em seguida, degustar criticamente todos os seus livros, na ordem inversa em que foram publicados, de Nêmesis (2010) a Goodbye, Columbus (1959). Deu-se por satisfeito. E não se arriscou a produzir mais um, "eventualmente medíocre, logo, dispensável".

 

Seus personagens mais crepusculares, melancolicamente impermeabilizados por fraldas geriátricas e sob constante ameaça de uma prostatectomia, vivem a praguejar contra a decadência física e mental: "Velhice é uma guerra, um inferno". Zuckerman, diga-se, não é uma exceção: removeu a próstata cancerosa, tem problemas de incontinência urinária, mas, como seu criador, continua vivo. Quando há dois anos conversou com Lúcia Guimarães sobre Nêmesis, Roth prometeu matá-lo em seu próximo romance. Agora, nem de câncer Zuckerman há de morrer.

 

O que aconteceu com Roth não é uma raridade na história da literatura. Rimbaud encerrou sua obra por volta dos 20 anos e foi mercadejar armas e café no continente africano, até morrer, aos 37 anos. O britânico E.M. Forster parou de escrever 46 anos antes de bater as botas, em 1970. Aluísio Azevedo trocou a ficção pela diplomacia aos 38 anos. Depois de Pedro Páramo, o mexicano Juan Rulfo nada mais fez, embora ainda lhe restassem mais três décadas de vida. Felipe Alfau, o Salinger catalão, publicou dois livros, recolheu-se durante 20 anos, publicou um terceiro, e de novo silenciou até esticar as canelas, 51 anos mais tarde. Campos de Carvalho pôs na praça o último de seus quatro romances, O Púcaro Búlgaro, 34 anos antes de partir para os campos elísios. Depois de escrever um romance, uma novela e alguns contos, Raduan Nassar deu por encerrada sua singular carreira literária e foi morar num sítio no interior de São Paulo.

 

Os silenciados por doenças não entram nessa lista. Se bem que, para nós, leitores, qualquer ausência, espontaneamente decidida ou causada por alguma incapacitação (o mal de Parkinson de Eugene O’Neill, a demência de Iris Murdoch e García Márquez) signifique, em última análise, a morte do autor. Daí o tom elegíaco das notícias e comentários a respeito da decisão tomada por Roth, que seus admiradores leram como se fossem obituários. Eram. R.I.P. Philip Roth.

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