Saindo da estrada

Após 40 anos de carreira, o Scorpions, maior banda alemã de todos os tempos, traz sua última turnê ao País em setembro e o guitarrista Jabs fala da despedida

Entrevista com

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2010 | 00h00

Adiós. Klaus Meine, Rudolf Schenker e Matthias Jabs

 

SÃO PAULO - Matthias Jabs, o guitarrista do Scorpions, fala ao Estado por telefone de Salt Lake City, nos Estados Unidos, e seu relato às vezes parece um diário de bordo. "É uma grande produção. O Scorpions viaja com seis caminhões e cinco ônibus. Faz dois meses que estamos na estrada, é uma turnê pesada, mas o ambiente é ótimo, a atmosfera é fantástica e ainda somos amigos."

 

Gigante do hard rock internacional, os integrantes do Scorpions são alemães de Hannover, que criaram a banda nos estertores dos anos 1960 e lançaram o primeiro álbum em 1972. Comemorando 40 anos de carreira, o Scorpions anunciou em abril sua aposentadoria. Agora, traz sua última turnê ao Brasil e chega a São Paulo nos dias 18 e 19 de setembro, no Credicard Hall - uma versão compacta da megaprodução que corre os Estados Unidos.

 

Talvez a maior banda alemã de todos os tempos, mais de 100 milhões de álbuns vendidos, os Scorpions marcaram os mais distintos públicos de rock com baladas incontornáveis, como Still Lovin" You, Wind Change e Rock You Like a Hurricane.

Get Your Sting and Blackout World Tour 2010, a despedida do Scorpions, escora-se num último disco de grande apelo, Sting in the Tail, que curiosamente revigora aquela pegada de rock pesado à AC/DC, muito divertida, muito eficiente. É sua terceira turnê pelo País.

A última música do seu disco chama-se The Best Is Yet to Come. O que pode vir de melhor pela frente, se a banda está acabando?

Quando gravamos essa música, não sabíamos ainda que esta seria a última turnê. Ela foi composta em 2004. Agora, depois do álbum pronto, quando soubemos que iríamos parar, essa canção no fim do álbum ficou parecendo irônico.

Seu mais recente álbum tem baladas épicas, como Lorelei e Sly. Ao longo de toda sua carreira, vocês nunca deixaram de fazer baladas adocicadas. Tem gente que acha, inclusive, que o Scorpions só faz baladas?

É verdade, tem gente que só conhece a gente pelas baladas. Bom, primeiro de tudo é preciso dizer que é algo que vem de forma natural. Nós gostamos de fato das duas coisas, das melodias calmas e do rock de riffs e peso. As baladas tratam de sentimentos pessoais. É como em todo ser humano: há um lado romântico, mas há outro agressivo dentro da gente. Nós abraçamos todos os nossos sentimentos, inclusive os agressivos.

Vocês já reuniram públicos de 100 mil, 150 mil pessoas na América Latina. Como explicam essa fidelidade do público daqui da região à sua música?

Não sei explicar, para ser honesto. Em minha opinião, é porque esse fã que se identifica com a banda conhece os músicos, conhece suas personalidades, sabe que pode confiar nas pessoas que estão ali tocando para eles. Sabe quem toca, conhece o que toca. O máximo que nós podemos fazer é não decepcioná-lo, tocar para ele e agradecer pelo apoio. Não existe, talvez, uma banda como os Scorpions, tão próxima dos fãs.

Após 40 anos na estrada, como vocês se relacionam? É dureza para você?

Olha, apesar do trabalho duro, é um ambiente pequeno, estamos sempre conversando, a atmosfera é fantástica. Ainda somos amigos. Os "novos" caras da banda, esses que estão no grupo só há uns 15 anos, também são muito integrados. Tem sido um bom período. Tivemos um dia de folga esses dias e saímos juntos, rimos, bebemos.

Numa produção desse tamanho, com 5 ônibus, 6 caminhões, roadies, técnicos, vocês não se sentem às vezes como uma empresa capitalista?

Nós não fazemos tudo, é claro. Temos as pessoas certas nos lugares certos. É uma grande operação, mas temos boas pessoas nos ajudando. É a única forma de a gente se concentrar na música. Temos agentes na Europa e nos Estados Unidos e eles fazem as negociações. Há um monte de gente envolvida. Mas é claro que nós lemos os relatórios, acompanhamos, aprovamos ou não as coisas.

Por que resolveram parar?

Inicialmente, foi uma ideia do nosso manager. Ele observou que o nosso disco era um dos melhores da nossa carreira, e seria interessante, se fôssemos parar, que parássemos no auge. Klaus (Meine, cantor) e Rudolf (Schenker, guitarrista) não levaram a sério. Mas aí eles se deram conta de que têm 66 anos cada um, e que talvez fosse mesmo o momento certo. É muito melhor parar no meio de uma festa do que num momento de declínio, de baixo-astral.

O seu disco mais recente, Sting in the Tail, é muito bom, talvez seja o melhor que vocês fizeram em muitos anos. Acha mais fácil fazer uma turnê com um repertório novo tão convincente?

É claro que é mais fácil. Concordo que esse disco é um dos nossos melhores em décadas. Acontece que, durante os últimos anos, estivemos muito preocupados em achar um caminho para renovar o som, experimentando coisas que nem sempre funcionaram. Esse álbum novo é uma volta aos meados dos anos 1980, àquele som que nossos fãs adoram e nós também. É muito bom tocar essas músicas novas, mas o show será uma mistura dos novos e velhos sucessos. Os fãs querem ouvir os clássicos, e nós vamos tocá-los.

Ouvi dizer que você é fã de futebol. Como viu o desempenho da seleção alemã na Copa do Mundo?

Adoro futebol. Devo confessar que fiquei muito feliz. Eles jogavam de forma criativa, um belo jogo coletivo, grandes valores individuais. Eram muito jovens, então eram aquele tipo de "time para ficar de olho". Era, se não me engano, o time mais jovem da Copa, ou o segundo time mais jovem. Mas surpreenderam e se mostraram efetivos bem antes da hora, é uma seleção muito promissora. A maior parte do tempo, jogaram como se estivessem se divertindo, e isso é fundamental. Também devo confessar que fiquei com um pouco de vergonha de ver o Brasil jogar. Parece que os papéis se inverteram: os alemães, que sempre tiveram a fama de jogar duro, de não ter "cintura", eram leves e alegres, e o Brasil jogava preocupado, de um jeito duro, marcial.

Show extra. A procura levou o promotor em São Paulo a abrir show extra, dia 18 de setembro, às 22 h (www.ticketsforfun.com.br, pelo telefone 4003-5588, na bilheteria oficial e nos pontos de vendas). A turnê começa por João Pessoa (PB) no dia 11 de setembro. Depois, o grupo faz shows em Buenos Aires, Santiago e La Paz para, só então, voltar ao País, passando por São Paulo, Curitiba, Brasília e São Luís.

SCORPIONS

Credicard Hall. Avenida das Nações Unidas, 17.955, 4003-5588. Dia 18/9, às 22h, e dia 19, às 20h. Ingressos de R$ 100 a R$ 600.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.