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Saída de Faustão encerra uma era na Globo

Um dos programas mais longevos da história da emissora deve ficar na grade da emissora até o final do ano

O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2021 | 05h00

Uma era no entretenimento da TV brasileira terminará no final deste ano. Assim que vencer seu contrato com a Globo, em dezembro, o apresentador Fausto Silva deixará de ocupar seu posto à frente do Domingão do Faustão, no ar desde 1989. Uma nova programação terá início em janeiro de 2022. A notícia de sua saída ventilou pelos sites especializados em TV durante a tarde de ontem e, depois, confirmada pela própria Globo. “Nestes mais de 30 anos de parceria, a TV Globo e o apresentador Fausto Silva sempre conversaram sobre novas oportunidades e inovações. Foi assim também nas últimas semanas, quando teve início o último ano do atual contrato. Mas, diante da decisão do apresentador de encerrar sua jornada à frente de programas semanais, só cabe à TV Globo respeitar e aplaudir a história que ele construiu”, afirmou, em nota, a emissora.

Mais magro depois de passar por um tratamento de saúde, Fausto tomou a decisão de não renovar o contrato que tem com a emissora depois de ter uma reunião com os diretores do entretenimento Carlos Henrique Schroder e Ricardo Waddington. Havia planos para o apresentador assumir um programa nas noites de quinta, mas ele não quis. Até o final do ano, no entanto, Fausto segue à frente de seu programa recebendo por ele um salário mensal estimado nas internas em R$ 5 milhões. As mudanças estão sendo estudadas por Waddington para serem inteiramente reformuladas a partir de 2022 – a missão que o novo executivo recebeu assim que chegou ao setor. “Gostaria de deixar aqui registrada a minha gratidão à Globo, onde aprendi muito e com a qual tive a honra de viver nos últimos 32 anos uma parceria de respeito e sucesso”, disse Fausto, em nota da emissora. Procurado pelo Estadão, o apresentador não atendeu à solicitação de entrevista. 

As mudanças nas peças-chave do entretenimento não devem parar em Faustão. Outros dois nomes que também devem deixar a emissora nos próximos meses por outras razões são os de Luciano Huck e sua mulher, Angélica. Luciano, com um contrato a vencer neste ano, parece estar interessado em entrar na política e disputar a eleição presidencial de 2022, o que tornaria seu desligamento imediato. Por tabela, se ele realmente se candidatar, sua mulher também não poderá continuar à frente do programa Simples Assim, segundo a lei eleitoral.

Não é de hoje que o quadro de funcionários de peso da emissora passa por um processo de reformulações. Para enxugar gastos com altos salários e economizar milhões, a Globo implementou uma política de demissões e renegociações de contratos. Até agora, a lista de dispensados inclui atores como Antonio Fagundes, Renato Aragão, Malu Mader, Miguel Falabella, Gloria Menezes e Tarcísio Meira, e o autor Aguinaldo Silva, que estavam há décadas na casa. Houve também quem decidisse não renovar seus contratos, caso de atores como Bruno Gagliasso. 

Polêmicas. As origens do comunicador Fausto Corrêa da Silva se deram no jornalismo esportivo do rádio e, logo depois, na equipe de Esportes do Estadão. Sua biografia tem início em seus 14 anos de idade, quando ele começa a atuar como repórter da Rádio Centenário de Araras, no interior de São Paulo. Cativante e ligeiro nos comentários, segue depois para Campinas e começa a trabalhar na Rádio Cultura. Em 1970, foi contratado pela Rádio Record e, em seguida, pela Jovem Pan.

Sua fase televisiva começa em janeiro de 1984, quando, já brilhando diante dos microfones por suas falas sem roteiro e sua marca em revelar ao vivo o que se passava com câmeras, técnicos e até mesmo seus diretores nos bastidores dos programas, ele faz sucesso no Perdidos na Noite, que estreou na Gazeta em um horário comprado por Goulart de Andrade. Dois anos à frente e o programa seria transferido para a TV Bandeirantes, fazendo um sucesso ainda maior, a ponto de levá-lo a apresentar um segundo programa, Safenados e Safadinhos.

Ao final da década, em 1989, seu nome já estava entre as sensações da TV brasileira quando a Globo o levou para conduzir algo que se tornaria uma de suas marcas mais fortes desde a saída do ar do programa Cassino do Chacrinha, que era uma referência dos sábados, finalizado com a morte de Abelardo Barbosa um ano antes, em 1988. 

Batizado por Daniel Filho, o Domingão do Faustão se tornou um dos atrativos publicitários mais caros da emissora, com a apresentação de quadros sempre longevos, como Arquivo Confidencial, Show dos Famosos, Vídeo Cassetadas, Olimpíadas do Faustão e Dança dos Famosos além de milhares de apresentações musicais com artistas nacionais e internacionais. 

Seus piores momentos se deram pela chamada guerra de audiência da TV dominical de 1997. Em uma época de supremacia dos programas, quando a internet não existia, o Domingão do Faustão, da Globo, e o Programa do Gugu, do SBT, brigavam para atrair a audiência formada por famílias inteiras nas tardes de domingo. Em outubro, Silvio Santos colocou Gugu Liberato para bater de frente com Faustão e obteve bons resultados com a mudança. Sentindo a queda da audiência, a direção de Faustão contra-atacou com um quadro em que um produtor tirava as medidas do bumbum de Carla Perez, a dançarina-sensação do grupo É o Tchan. Mais duas semanas, e veio o quadro Sushi Erótico do Faustão. O apresentador recebia três modelos praticamente nuas, com as partes íntimas cobertas por sushi e outros pratos japoneses. Enquanto isso, os atores da casa Márcio Garcia, Mateus Rocha e Oscar Magrini faziam comentários sobre o corpo da mulher. A repercussão foi imediata, e Carlos Manga, o diretor, acabou sendo afastado. 

Antes disso, em 8 de setembro de 1996, a disputa pelos primeiros lugares já havia rendido outro episódio polêmico. Ele levou ao ar um jovem de 15 anos chamado Rafael Santos, mais conhecido como Latininho, por se vestir como o cantor Latino. Medindo apenas 87 centímetros de altura e com problemas psiquiátricos por sofrer de uma síndrome chamada Seckel, Rafael foi ridicularizado pelo apresentador diante das câmeras. O caso foi parar na Justiça, e a juíza Gisela Folly, da 21.ª Vara Cível do Rio, considerou que ele havia humilhado o jovem. A Globo foi condenada a pagar indenização de R$ 1 milhão por danos morais.

Atualmente, em tempos de redes sociais, as falas e os posicionamento de Fausto, manifestados durante seu programa, costumam ter repercussão. O apresentador abriu ainda um importante espaço para artistas alcançarem um grande público, sobretudo aqueles que estão fora da mídia, tanto no quadro Ding Dong quanto em suas indicações culturais. 

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