Sai reedição de toda a obra de Mario Quintana

No ano do centenário de nascimento de Mario Quintana (1906-1994) não faltam oportunidades concretas e palpáveis, e que vão muito além dos costumeiros versos em camisetas, panos de pratos e agendas, para que o poeta sul-rio-grandense e sua obra sejam definitivamente repensados. Isso deve ser feito especialmente por historiadores da literatura brasileira que continuam em dívida com a poesia de Quintana. No início do ano passado, quando ainda se comemorava o centenário de nascimento de outro autor gaúcho, Erico Verissimo (1905-1975), a editora Globo antecipou-se e reeditou a Coleção Mario Quintana, com oito títulos da obra do poeta, autor que nos anos de 1930 foi também tradutor e o responsável pela estréia na língua portuguesa de grandes escritores, entre eles, Giovanni Papini, Virginia Wolf e Marcel Proust. Em 2006, a editora prepara-se para reeditar mais dois títulos nos próximos meses. Mas agora a editora Nova Aguilar está reeditando Poesia Completa, volume único que pela primeira vez reúne o total da obra de Quintana. A primeira edição, com 3 mil exemplares, lançada em outubro do ano passado, esgotou em março deste ano. Em parte, o mérito desses dois empreendimentos editoriais fica com um único nome, o de Tania Franco Carvalhal. Escritora, ensaísta e especialista em Literatura Comparada, Tania é a responsável pelas organizações das obras lançadas pelas duas editoras. Professora do Departamento de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) há mais de 40 anos, a pesquisadora conta que foram quase dois anos de trabalho para organizar, preparar o texto, fazer o prefácio e as notas de Poesia Completa. A obra reúne os 15 livros publicados em vida pelo poeta a partir do início dos anos 40 do século 20: A Rua dos Cataventos (1940), Canções (1946), Sapato Florido (1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950), Espelho Mágico (1951), Caderno H (1973), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1977), Esconderijos do Tempo (1980), Baú de Espantos (1986), Da Preguiça como Método de Trabalho (1987), Preparativos de Viagem (1987), Porta Giratória (1988), A Cor do Invisível (1989) e Velório sem Defunto (1990). A edição de Poesia Completa inclui também os cinco livros dedicados a poemas para a infância: O Batalhão das Letras (1948), Pé de Pilão (1975), Lili Inventa o Mundo (1983), Sapo Amarelo (1984) e Sapato Furado (1994). Para alegria dos leitores de Quintana, o volume abarca ainda o livro póstumo Água (2001). Elogios não faltam a Poesia Completa. "A publicação da Nova Aguilar vem preencher, em parte, uma injustificável lacuna nos estudos sobre Mario Quintana. Além do trabalho antológico de fôlego (Quintana publicava nas editoras que calhavam no momento, daí a dificuldade de juntar tudo isso), o texto de Tania Carvalhal é luminoso, estabelecendo novos parâmetros hermenêuticos sobre a obra do grande poeta brasileiro, retirando-o do limbo crítico em que se encontra", afirma o escritor Luiz Antonio de Assis Brasil. De acordo com o poeta e escritor Armindo Trevisan, Poesia Completa permite descobrir as diferentes formas de humor de Mario Quintana. "Percebe-se um humor mais filosófico nas últimas obras dele", observa o escritor que lança ainda este ano, pela editora Brejo, Mario Quintana Desconhecido. No livro, Trevisan, que conheceu Quintana em um bar de Porto Alegre, pretende mostrar as outras faces do poeta além das já conhecidas - de humorista e crítico contumaz. Para o escritor houve uma propensão a considerar Quintana especialmente um humorista. "Essa tendência prejudicou a assimilação de determinados aspectos do seu lirismo. E também da temática de sua poesia, que ficou restrita a alguns temas. O meu esforço consiste em fazer uma leitura global da obra do Mario, agora que isso se tornou possível graças à publicação da poesia completa dele", elogia Trevisan, que declarou certa vez ser Quintana o seu guru poético. Se boa parte da crítica contemporânea desprezou o poeta, sem enxergar a grandeza de seu lirismo, talvez tenha sido porque não reconheceu em Mario Quintana o que o escritor Assis Brasil chamou em artigo recente de boutade de impecável inteligência. O que aconteceu, segundo Assis Brasil, foi "um estado de espírito perverso que se formou em torno de Mario Quintana; esse estado de espírito (chamo-o assim faute de mieux) foi protagonizado por alguns de seus pares, notórios alguns, e, também, por uma certa cultura que passou por alguns professores do Ensino Fundamental e Médio, que, não conseguindo entender o poema, caricaturavam o poeta". O mesmo equívoco ocorreu com a crítica, "lidando com algo difícil de ser digerido, que era a não-adesão de Quintana a certas modas literárias, procuravam esquecê-lo, ou pior: perdoá-lo. O desconforto da crítica era geral, e só Bandeira - que não era um crítico - rompeu esse silêncio, em seu célebre pronunciamento-poema na Academia Brasileira de Letras", lembra Assis Brasil para quem a obra literária de Quintana ainda carece de ensaios à altura do poeta. A manifestação de Bandeira data de 1966 e está no livro organizado por Tania Carvalhal. Diz a ode: "Meu Quintana, os teus cantares/ não são, Quintana, cantares:/ são, Quintana, quintanares/ Quinta-essência de cantares.../ Insólitos, singulares/ Cantares? Não! Quintanares!" Poesia Completa traz também interpretações de Quintana engendradas por nomes marcantes da literatura brasileira, como Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Carlos Nejar, Paulo Mendes Campos (1922-1991) e Cecília Meireles (1901-1964), publicadas em diversas épocas em jornais e revistas. "Esses textos constituem a fortuna crítica sobre a obra de Mario Quintana através de alguns autores significativos. Costumo dizer que Quintana ganhou o apreço dos ´grandes´", afirma Tania Carvalhal, que conheceu o poeta ainda menina. "Eu tinha cerca de 10 anos e o conheci na redação do jornal Correio do Povo, onde ia com meu pai. Guardei sua imagem quieta, de grandes olhos claros e voz grave", lembra. Já adulta, ela o reencontrou nos anos 70 e a partir daí estudou regularmente sua obra. "Era um homem tímido, sensível e solitário, traços que se manifestam em sua obra." Quando Mario Quintana fez 80 anos, Tania organizou a antologia Mario 80 Anos de Poesia, publicada em 1986 pela editora Globo, e do álbum, Mario dos 8 aos 80. Escreveu, também, um ensaio crítico, Quintana entre o Sonhado e o Vivido, publicado pelo Instituto Estadual do Livro em 1984, e, recentemente, reeditado pelo mesmo instituto gaúcho. Entre seus próximos projetos está um livro sobre a correspondência trocada entre o paulistano Mario de Andrade (1893-1945) e Augusto Meyer (1902-1970), poeta gaúcho que Tania estuda há décadas, tendo publicado três obras sobre ele. Primeira mulher latino-americana a presidir a Associação Internacional de Literatura Comparada, Tania conta que são inúmeras as atividades em que está envolvida neste ano de homenagens a Mario Quintana. Quase 12 anos após a morte do poeta - que morreu em 5 de maio de 1994 -, resta ao público, leigo ou especializado, desvendar a poesia lírica de Quintana e compreender por que todos que atravancaram o caminho do autor do Poeminha do Contra passaram, mas sua obra permanece indelével e espirituosamente provocadora.

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