Milton Michida/ Estadão
Milton Michida/ Estadão

Sai o livro ‘Notas Sobre uma Possível A Casa da Farinha’, auto de João Cabral

Obra comprova como o escritor preparava com precisão os versos antes da publicação

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2013 | 09h59

Em meados dos anos 1980, o poeta João Cabral de Melo Neto entregou para a filha Inez um fichário escolar com alguns manuscritos dentro. “A cegueira não me deixou terminar, faça o que quiser com isso”, disse o escritor a respeito do estudo para um auto que se chamaria A Casa da Farinha. O texto finalizado resumia-se a poucos diálogos, mas Inez percebeu que o material entregue pelo pai trazia uma joia rara: seu processo criativo.

“Ao ler o texto, deparei-me com seu jeito de ser e trabalhar, e com o caminho percorrido desde a ideia inicial até o trabalho concluído”, escreve ela no prefácio de Notas Sobre um Possível A Casa da Farinha, publicado agora pela editora Alfaguara.

Trata-se dos bastidores de uma criação na qual João Cabral começou a trabalhar em 1966 – e o livro traz os rascunhos incompletos dos primeiros versos, escritos em 1985. A cegueira impediu seu término e o aumento da falta de visão é notado na caligrafia do poeta que, de redonda e perfeita, torna-se, aos poucos, torta e quase ilegível.

Mesmo incompleto, o livro é precioso ao revelar a minuciosa pesquisa de João Cabral sobre um assunto que conhecia desde a meninice: o ambiente do local onde é tratada a mandioca até se chegar na farinha. O vocabulário, os hábitos, a prosódia, os detalhes mínimos do processo de produção, nada escapa ao poeta, que testa versos sobre o conflito entre tradição e modernidade.

Inez Cabral passou a limpo, na máquina de escrever, os dois últimos livros publicados pelo pai, o poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999): Sevilha Andando e Andando Sevilha. Também foi assim com Notas Sobre uma Possível A Casa da Farinha, que ela demorou para trabalhar, como conta na entrevista a seguir.

Novamente, será possível perceber a ruptura radical na linguagem da poesia brasileira provocada por João Cabral. Antes dele, os versos nacionais viviam à sombra do simbolismo e da retórica pomposa. A partir de Pedra do Sono, de 1942, mas especialmente com a publicação de O Cão sem Plumas (1950), o poeta revela uma escrita marcada pelo estilo seco, cortante, uma visão materialista da escrita, além de seu desprezo ao enfeite e à beleza fácil.

A leitura sempre surpreendente de seus poemas logo nos convence de que João Cabral era um arquiteto da poesia – cada verso era cuidadosamente pensado, a fim de dar forma a uma estrutura consistente do poema. Com isso, despertou a atenção dos concretistas que, para se legitimarem, elegeram-no seu precursor.

O mesmo planejamento se destaca em A Casa da Farinha, algo nada estranho na obra cabralina. Em outro prefácio da edição, o também poeta Armando Freitas Filho destaca a importância do cuidado do poeta. “Em mais de uma entrevista ou em conversa, ele declarou que prefere preparar de antemão o arcabouço do livro, o seu alcance, do que escrever aleatoriamente os poemas que irão lhe dar volume”, escreveu.

Freitas Filho observa como a eterna exatidão buscada pelo poeta se traduz em algo semelhante a uma fotografia: “A casa de farinha, aberta e escancarada, por obra do poeta, e mesmo inacabada, talvez até por isso mesmo, parece refletir em tempo real os acontecimentos – do estabelecimento em perigo, prestes a esfarinhar-se – e o ir e vir da inspiração de quem os descreve e pesquisa, e desde o seu começo mostra soluções dramatúrgicas com muitas possibilidades de desenvolvimento”.

Em sua poesia, João Cabral oferecia uma visão objetiva, expressa principalmente nos versos sem retoques que retratam a triste realidade nordestina e que tem um ponto alto em Morte e Vida Severina – e que teria extensão, certamente, em A Casa da Farinha, cuja dicção, novamente observa Freitas Filho, é calcada na matriz da literatura de cordel, “pois ele incrementa, ao didatismo inerente a ela, sua voz de poeta maior”.

Entre receber os manuscritos de seu pai e a publicação, passou-se um certo tempo. Por quê? Havia alguma resistência em divulgar esse material?

Quando ele morreu, o Brasil perdeu um “monstro sagrado”, mas eu perdi meu pai. Tive que digerir a minha perda, viver meu luto. Só comecei a decifrar os manuscritos alguns anos depois, quando me senti com isenção suficiente para estudá-los deixando de lado emoções pessoais. Depois de transcrevê-los, fiz algumas tentativas de publicação, mas as coisas têm a sua hora certa. A única proposta que recebi foi de fazer um livro de luxo, do gênero “coffee table book”. Tenho certeza de que meu pai não gostaria disso. Eu queria que o livro fosse publicado com qualidade, mas a um preço acessível, destinado a leitores interessados em literatura e não em decoração de interiores. Finalmente, depois de todos esses anos, a Alfaguara se interessou pela publicação e aceitou publicá-lo do jeito que eu esperava. Só tenho a agradecer por isso. Valeu a pena pois, além de interessante, o livro ficou lindo.

Você diria que A Casa da Farinha só nasceu depois do sucesso de Morte e Vida Severina? Ou ele criaria outro auto de qualquer forma?

As casas de farinha sempre foram para João Cabral locais guardados na sua memória afetiva, trazidos de sua infância passada em engenhos da zona da mata pernambucana. Mas, infelizmente, sou apenas a sua filha, não tinha acesso a seus pensamentos íntimos.

Chico Buarque dizia que João Cabral era muito antimusical e reagiu mal quando pediram autorização para musicar Morte e Vida Severina. Mas, depois, ficou empolgadíssimo com o trabalho que o Chico realizou. João Cabral pensava em também musicar A Casa da Farinha?

De fato, João Cabral não gostava de música, a não ser do flamenco e dos frevos de sua infância. Recebeu o pedido da permissão para musicar Morte e Vida Severina com desagrado e desconfiança. Mas, quando viu o espetáculo montado, adorou, pelo respeito do Chico aos versos, ao ritmo de Morte e Vida Severina. A partir daí, passou a ser fã do Chico Buarque, explicando que gostava pelo fato do Chico não compor músicas sentimentais e líricas. Achava A Banda genial, ouvia sempre. Construção também o emocionava. Ele tinha profunda aversão por músicas e poesias confessionais, que falassem de sentimentos. Quanto a musicar a Casa da Farinha, apenas ele poderia responder a essa pergunta, posto que o auto ainda não estava escrito.

João Cabral era chamado de poeta da desconstrução, da ‘descarnalidade’, da secagem do osso ao sol. Como ele via a própria poesia e a própria obra?

Ele era uma pessoa contida, sentimentos derramados e lirismo desenfreado o deixavam na maior irritação. Essa era a sua personalidade. Disse em várias entrevistas que achava a palavra maçã mais poética do que angústia, tristeza, ou qualquer outra palavra referente a sentimentos. Para ele, sentimentos e emoções eram pessoais e intransferíveis. Ao falar a palavra maçã, o interlocutor sabia de imediato de que estava falando, sentia o cheiro da maçã, visualizava a sua forma, sentia o seu gosto. Não sou crítico literário, mas acredito que esse gosto por palavras concretas guiasse seu trabalho. Ele as usava para provocar essas emoções pessoais e intransferíveis em seus leitores. O que sei da poesia dele, descobri lendo seus poemas, ele não conversava comigo a esse respeito.

Há algo inédito ainda de João Cabral para se publicar?

Acredito que não. Depois da morte da minha mãe, sua vista se deteriorou de forma galopante, ele parou de escrever. Esse manuscrito, ao que eu saiba, foi o único que restou.

 

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