Sai o livro <i>Coletivo</i>, que discute a nova arquitetura paulista

A permanência do arquiteto curitibano João Batista Vilanova Artigas (1915-1985) como paradigma da arquitetura paulista pode ser atestada não só nos prédios já construídos na cidade que seguem seu pensamento estético - uma arquitetura marcada pelos ideais de pureza e clareza do brutalismo europeu. Projetos de seus discípulos, mesmo os que não foram seus alunos na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU/USP), estão prontos para ser executados na capital e outras cidades do interior de São Paulo, como mostrou a exposição Coletivo: Arquitetura Paulista Contemporânea, realizada entre agosto e este mês no Centro Cultural Maria Antonia, onde será lançado nesta segunda-feira o livro homônimo sobre a mostra, uma edição bilíngüe (português/inglês) com textos de Ana Luiza Nobre, Ana Vaz Milheiro e Guilherme Wisnick.O livro apresenta uma seleção de 36 projetos de seis escritórios de arquitetura de São Paulo: Andrade Morettin, MMBB, Núcleo de Arquitetura, Projeto Paulista, Puntoni/SPBR Arquitetos e Una Arquitetos. Cada um deles revela em detalhes seis obras construídas e projetos que vão mudar a face de São Paulo, entre eles o da reconversão urbana do Largo da Batata, em Pinheiros, na zona oeste. Constituído por arquitetos formados pela FAU entre 1986 e 1996 - hoje professores -, o grupo compartilha os ideais de Artigas e outros premiados arquitetos, como Paulo Mendes da Rocha, autor do projeto de restauro da Pinacoteca.Os mandamentos da arquiteturaO envolvimento e a postura desses arquitetos com relação aos problemas da cidade traduzem os ideais de Rocha e Artigas, arquitetos cassados pelo governo militar em 1969. Nenhum edifício, segundo o primeiro mandamento de Artigas, é uma entidade autônoma, separado da paisagem que o circunda. Sua interferência, além de discreta, deve estar em harmonia com o ambiente, adotando soluções formais que revelem a verdade estrutural da arquitetura. O segundo mandamento diz respeito ao papel e o impacto que um projeto arquitetônico provoca. A intenção de um projeto da escola paulista, assim, não se limita à obra, o que torna transparente a ligação da mesma com os ideais do projeto moderno (leia-se o funcionalismo da arquitetura formalista de Le Corbusier e o rigor construtivo de Mies van der Rohe).Coletivo, o livro resultante da exposição, não é um quadro completo da arquitetura paulista contemporânea. É um recorte organizado em ordem cronológica que destaca obras de grande porte como o terminal de ônibus na Lapa (projeto do Núcleo de Arquitetura de 2002) e o projeto de reurbanização da Água Branca (do escritório MMBB). Este último recusa-se a fazer um revival nostálgico dos modelos historicistas, segundo um dos organizadores do livro, Guilherme Wisnik.Wisnik, ex-estudante da FAU nos anos 1990, reconhece que a visão do urbanismo de jovens arquitetos ainda conserva como base ideológica o humanismo marxista de Artigas, mas observa que o brutalismo foi sofrendo transformações e incorporando materiais como chapas metálicas. ´Depois da ressaca pós-moderna, a arquitetura paulista voltou-se para uma formalização mais contida´, observa Wisnik, apontando a escola minimalista e os arquitetos ligados ao funcionalismo (Norman Foster, Renzo Piano) como os vetores de articulação do discurso paulista.Dos seis grupos de Coletivo, segundo outra organizadora do livro, Ana Vaz Milheiro, os projetos de Puntoni e Bucci são os que mais investem no discurso plástico, encarando frontalmente a questão da forma. Já outra organizadora, Ana Luiza Nobre, destaca o trabalho do escritório Andrade Morrettin, que, segundo ela, ´reclama uma interrogação mais desinibida sobre os nexos da arquitetura com o circuito frenético da produção e do consumo em que se sabem mergulhados´.Coletivo. Centro Universitário Maria Antonia. R. MariaAntônia, 294. tel. 3255-7182. Lançamento hoje, 20 h. R$ 65

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