Sai o "Dicionário de Câmara Cascudo"

Enquanto a grande maioria dos pesquisadores dava as costas para as manifestações populares, Luís da Câmara Cascudo freqüentava festas religiosas e de rua, ouvia canções folclóricas, escutava histórias de sertanejos. Foram anos de afiada pesquisa, que hoje permite traçar o perfil do homem brasileiro do século passado em suas crenças, hábitos alimentares, costumes culturais e religiosos. A partir desse importante material antropológico, Câmara Cascudo escreveu algo entre 120 e 160 livros (nem seus herdeiros sabem o número exato), entre pesquisa, ficção, historiografia e biografia. Para que nenhum aspecto dessa vasta obra se perdesse, o historiador Marcos Silva organizou o Dicionário Crítico Câmara Cascudo (352 páginas, R$ 45), recentemente lançado pela editora Perspectiva. Trata-se de um autêntico guia de leitura - são 87 verbetes que mapeiam os títulos lançados por Cascudo, desde seu primeiro livro, Alma Patrícia, escrito em 1921, até o único romance, Canto de Muro, de 1959 (é preciso lembrar que muitas obras foram depois fundidas, o que deixa indefinido o número total). A recuperação do trabalho de Câmara Cascudo, aliás, acontece sob a chancela da Global Editora, que já lançou 15 volumes em forma de coleção. O mais recente é História de Nossos Gestos (288 páginas, R$ 45), em que o pesquisador, ciente de que os gestos na maioria das vezes falam mais e melhor que as palavras, listou 333 deles, todos comuns aos brasileiros (alguns próprios, outros importados e outros ainda adaptados). Já os textos do Dicionário Crítico foram produzidos por diversos colaboradores, estudiosos da obra do folclorista que, na verdade, também era etnógrafo, antropólogo, historiador, etnólogo, geógrafo, romancista e poeta. O critério de escolha foi a semelhança que o trabalho de cada um apresenta com a obra de Cascudo. Câmara Cascudo completaria 105 anos no dia 30 de dezembro. Em seus últimos dias, estava cego e surdo, e dizia que ouvia com o coração quando morreu justamente de um ataque cardíaco, em 1986, aos 87 anos. Deixou como legado, além de uma extensa obra, uma incansável disposição para a defesa dos costumes populares. Em Natal, onde passou boa parte da vida, brigou com um prefeito que decidiu mudar o nome da rua onde nasceu para Luís da Câmara Cascudo. Dizia que a rua tinha um nome lindo. Mesmo derrotado, fez questão que se incluísse na nova placa: "ex-rua das Virgens".

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