Sai novo livro do autor de <i>Quando Nietzsche Chorou</i>

Você entra naquela sala bem decorada e acolhedora, senta-se na cadeira diante da escrivaninha (desviando os olhos do divã ao lado) e pronto: está aberto o caminho para o negro profundo e secreto da mente, dos sentimentos, complexos, traumas e desejos. Parece fácil, não é mesmo? Essa primeira entrevista com um terapeuta às vezes custou anos de luta interna contra todos os senhores acima arrolados. Quando não eram as emoções dizendo NÃO à tal invasão de privacidade, eram as memórias de infância ocultando-se safadas nos cantos do esquecimento, e por aí foi. Você percorreu uma trajetória inimaginável para chegar até esse cidadão circunspecto e indecifrável que o espera atrás da mesa. Esperando o que, cara pálida? Que eu me abra inteiro pra você? Que te conte TUDO? Pode ficar sentado que vai se cansar!Pois é aí que entra a primeira recomendação do psiquiatra americano Irvin D. Yalom, no recém-lançado Os Desafios da Terapia - Reflexões para Pacientes e Terapeutas (Ediouro, 229 págs. R$39,90): estabeleça com seu paciente uma relação de confiança e sigilo. O aqui e agora que se constrói a cada sessão - e que desencadeia a transferência, de acordo com o papa Sigmund - é a base para uma psicoterapia evoluir no sentido da descoberta e de um melhor desempenho do paciente no mundo. Parece coisa de comportamentalista, não? O terapeutizado sai dali prontinho para obedecer às normas (estas, sim, loucas de pedra) da sociedade. Não é nada disso que propõe o autor, adepto do afeto, da liberdade e outras transgressões do gênero. Yalom acredita que o terapeuta pode se expor, pode consolar o paciente que chora, pode visitar sua casa ou conversar com seus familiares. Ou seja, põe abaixo muitas das amarras que regeram e ainda regem grande parte dos psicanalistas.Imagine-se então, você, pobre paciente, impaciente e aflito, diante desse senhor (hoje ele está com 75 anos) tão afável, tão disponível. O que lhe resta fazer senão abrir o coração e despejar tudo ali mesmo, no primeiro encontro? Como se fosse fácil. Yalom acredita que uma entrevista inicial deve abordar o máximo possível de itens informativos, como o cotidiano, a alimentação e quantas horas o paciente perde na internet em chats sexuais. Não, ele não é um voyeur e recomenda, acima de tudo, que um terapeuta nunca se envolva sexualmente com seu paciente - antes recorrer a profissionais do sexo, enfatiza.Como se vê, a ética permanece inabalada mesmo diante de um procedimento profissional bastante liberal. "Uma das nossas maiores tarefas na terapia é prestar atenção aos nossos sentimentos imediatos", escreve, acentuando que muitas dessas reações "pertencem" ao paciente, ou seja, ele as deflagra nas outras pessoas de sua vida. Da mesma maneira, o paciente repete com o terapeuta seus mecanismos habituais, seja de solicitação excessiva, agressividade, etc. A maioria deles se ressente muito de dividir seu "guru" com outros "rivais" - e acaba sentindo-se rejeitada.Relato sinceroTudo isso, garante Yalom, contribui para que o processo terapêutico evolua, insights apareçam e descobertas sejam feitas. Mas, acrescenta ele, nenhuma dessas ginásticas mentais vale tanto quanto a interação afetiva ali mesmo, no consultório.Irvin Yalom também regeu terapias de grupo, as quais considera extremamente produtivas. Ele mesmo participa de um, cujos integrantes são terapeutas homens, experimentados como ele, e no qual não há líder. Aliás, sua advertência severa é sobre a necessidade de o analista estar se analisando periodicamente - nunca esquecendo que é reles ser humano também. Utilizando-se de diversos recursos que aprendeu ao longo de mais de 40 anos de clínica, em algumas ocasiões Yalom pede ao paciente que diga o que quer ouvir dele - e obedece a seu pedido, criando um paradoxo: o indivíduo escuta exatamente aquilo que o reconforta, mas sabendo que foi ele mesmo que o solicitou.Ao confessar que não gosta muito de tratar de pessoas apaixonadas, tanto por uma certa inveja, quanto por não querer ser carrasco de uma paixão que muitas vezes merece ser destruída, o psiquiatra explica sua posição: "O amor romântico é sustentado pelo mistério e desmorona ante um exame." Como se vê, ninguém é perfeito. Por outro lado, Yalom dá especial importância aos sonhos, e sua interpretação nunca pretende ser integral ou minuciosa - cabe saber pescar naquela nebulosa o que mais tem a ver com o momento terapêutico do sonhante.Os desafios da terapia não forma terapeutas, nem tem essa pretensão. É mais um relato sincero e bastante acessível sobre uma experiência profissional de longos anos e serve aos dois lados - terapeutas e pacientes - com a mesma generosidade. Melhor de tudo, diz exatamente a que veio, diferentemente dos livros de ficção do autor de Quando Nietzsche Chorou. Ao servir-se da literatura para falar de psicologia, Yalom comete o maior dos pecados: a literatura não é serviçal de causa nenhuma. Ao falar sem máscaras de seu aqui e agora, ilumina as intenções - e de quebra faz uma boa propaganda, deixando o leitor, sempre um paciente em potencial, com vontade de ir até a Califórnia para ser atendido por um profissional tão acolhedor.

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