Sai nova safra de poesia em revista

As revistas literárias são tradicionalmente a fonte primeira para a divulgação da poesia. Algumas dessas publicações, mesmo quando editadas apenas uma vez, podem tornar-se referência porque contêm antologias feitas em cima da hora, na urgência de pôr em circulação o que acontece nas mais variadas e ocultas poéticas. Com apoio ou sem apoio elas cumprem seu papel, seja a Dimensão de Uberaba, obra maior de Guido Bilharinho, seja a Medusa, Teresa, Inimigo Rumor, as informatizadas ou esta Iararana, publicada na Bahia (com patrocínio da Copene) e que traz no último número textos de Antonio Carlos Secchin, Miguel Sanches Neto, Luís Antonio Cajazeira Ramos, Aleilton Fonseca e Luiz Ruffato, entre outros. Vale a pena anotar três poemas de Luiz Ruffato. Quem leu suas narrativas poderá perceber como, mesmo a prática poética não sistemática, mas consciente, permite o apuro da prosa. O leitor encontrará aí poemas de autores argentinos, a tradução de um poema de Derek Walcott, etc.Além da revista, há livros que exigem registro. Um deles é a nova coletânea de Armando Freitas Filho, chamada Fio Terra (Nova Fronteira), numa edição ao mesmo tempo simples e requintada. É obra de poeta definitivo. A leitura de seus textos, como de outros autores contemporâneos, dispensa a comparação provocada por um parnasianismo crônico de eleger um príncipe para o trono, que virou farinha. Há autores e realizações, há uma coletividade atuante, da qual emergem poemas como o que dá título ao volume de Freitas Filho e outros.De poetas mais recentes: Primeiras Palavras do Mamute Degelado, de autoria de Eloésio Paulo, Lama, de Anelito Oliveira, e Ar das Cidades, de Sérgio Alcides. O primeiro foi lançado numa edição restrita, para cem leitores, em São Paulo. Eloésio mistura humor e lirismo, na manifestação da vitalidade: "Dedos que tornam/piano um filme allegro/rush: formiguinhas." Como Fio Terra, Lama, de Oliveira, publicado pela Oribó Edições, de Belo Horizonte, também numa edição bem cuidada, é uma espécie de diário poético, desta vez sobre a experiência urbana: "Chuva a rolar sobre a/laje idéias saindo das/coisas para uma noite/nascendo perdida crua/e presa entre paredes/água afogando todos/os sentidos envolvendo/tudo como uma luva/esquecida no canto do/passado nas gargantas." Em Ar das Cidades (Nankin Editorial), Sérgio Alcides apresenta um registro diferente da experiência urbana, como estes últimos versos de Poema de Bolso (com brasão), sobre uma arriscada viagem de ônibus, de repente metafïsica: "Passageiro do passageiro,/pensar que é ronda ainda estar vivo." Ou este Não Vermeer: "O olhar fantasma apenas atravessa/o lúcido lençol da tarde oblíqua." É sobre a paisagem vista de um trem em movimento.

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