Sai nova edição do folhetim de Dostoievski

O tradutor Boris Schnaiderman lembra que Niétotchka Niezvânova (Editora 34, 226 págs., R$ 25) é uma obra inacabada. Mas quem dera todos os livros acabados fossem como ele. O projeto inicial de Fiodor Dostoievski (1821-1881) foi interrompido em 1849, quando o jovem escritor freqüentava um círculo de socialistas utópicos. Foi preso, acusado de participar de uma conspiração para matar o czar Nicolau I. Para Schnaiderman, tudo faz crer que o autor russo "preparava um vasto romance, como suas obras posteriores". Depois de dez anos na Sibéria, quatro cumprindo uma pena de trabalhos forçados, Dostoievski decidiu, contudo, publicar o texto elaborado, com algumas revisões, e partiu para outros problemas e outras histórias. Schnaiderman diz que não gosta de "comparar as obras entre si, dizer que essa é mais importante, que aquela é mais importante". "Mas tenho uma apego especial por esse livro, a sua personagem central, uma grande criação literária", complementa. O texto foi chamado, na edição russa das obras completas do autor, de novela. Boris acha que não é possível adotar essa classificação, especialmente pela relação de Niétotchka Niezvânova com o folhetim, sobretudo em sua terceira parte (forma que o aproxima de Humilhados e Ofendidos, por exemplo). Defende, num posfácio à edição, intitulado Um Grande Romance Truncado, que a ação "se suspende e resta ao leitor conjeturar sobre o que fariam as personagens se o romance fosse continuado". O livro narra a trajetória de Ana, apelidada de Niétotchka pela mãe, de sua infância até os 16 anos (é bastante provável que o autor pretendesse fazê-la chegar à idade adulta). O nome do romance combina esse apelido, que tem em seu início a palavra "niet", ou seja, não, e Niezvânova, palavra que dá a idéia de criatura sem nome, segundo o tradutor. Juntas elas simbolizariam criaturas "abandonadas e desprotegidas". As memórias da menina começam informando que a narradora não se lembra de seu pai. "Eu tinha 2 anos quando ele morreu." Na verdade, o primeiro grande episódio do livro narra a paixão de Ana por seu padrasto, Iegor Iefimov, um violinista, a quem chama de paizinho: não sabe que é o segundo marido da mãe. A paixão de Ana por ele é tanta que ela chega a imaginar a morte da mãe. "É um dos romances mais premonitórios de Dostoievski", afirma Schnaiderman. Esse desejo de matricídio, na complexa relação entre filha, pai e mãe, é uma das questões que ganhariam explicação teórica posteriormente, com o advento da psicanálise - Sigmund Freud, aliás, é autor de um texto nomeado Dostoievski e o Parricído, em que discute a epilepsia do romancista, sua relação com o pai e aproxima três obras-primas da literatura universal: Édipo Rei, de Sófocles, Hamlet, de Shakespeare, e Os Irmãos Karamazov, do escritor russo. Mas a paixão da filha pelo pai não é o único tema que ultrapassa o tempo e a Rússia do autor. Depois de um desfecho dramático, Ana vai viver com uma família aristocrática - e se apaixona, ainda menina, por outra garota, a princesinha Kátia. Dostoievski não se limita a sugerir o desejo hoje chamado de "homoerótico". Um trecho ilustra bem a clareza de seu texto: "De manhã, acordamos ao mesmo tempo, beijamo-nos apressadamente, pois alguém vinha entrando em nosso quarto; antes disso, todavia, tive tempo de chegar correndo à minha cama." Em outro momento, Ana conta: "Nossos lábios ficaram inchados de tanto beijar." "Esse é um dos textos que mostram melhor essa capacidade do artista de ver o que sua época ainda não foi capaz de observar e teorizar", afirma Schnaiderman. "O que era tratado de forma patológica pela sociedade aparece com naturalidade, o que é tanto mais impressionante quando se sabe que a literatura russa da época era muito pudica." A "penetração psicológica extraordinária", na definição de Schnaiderman, capaz de prenunciar descobertas posteriores da psicanálise, pode ser sentida inclusive na terceira parte do romance, quando Niétotchka passa a viver com Aleksandra Mikháilovna, irmã mais velha de Kátia. Em dado momento, ela conta que travava longas conversas com Aleksandra: "Depois das minhas confissões, iniciávamos geralmente longas conversas, em que ela me explicava o meu próprio passado, de modo que eu realmente parecia sofrê-lo de novo e aprendia muito." A educadora formal de Ana, a francesa Madame Léotard, "freqüentemente, considerava essas conversas demasiado sérias, e passava a julgá-las de todo inoportunas, depois de ver as minhas lágrimas involuntárias". Ana, contudo, percebe o efeito positivo de sentir novamente a dor pretérita, algo que também poderia, atualmente, ser chamado de "terapêutico": "Quanto a mim, pensava justamente o contrário, porque, depois dessas lições, eu sentia tanta leveza e doçura como se não tivesse havido nada de infeliz em meu destino." Mas o romance não se limita a discutir a psicologia dos personagens. Ana nasce numa família empobrecida, "chefiada" por um violinista fracassado, que deixou a província para se aventurar em São Petersburgo, mas que nunca conseguiu manter um mínimo de disciplina para tirar proveito de seu imenso talento. Com a morte dos pais, ela vai viver com a mais alta aristocracia; depois, decai um tanto nesse lugar. O folhetim de Dostoievski acaba servindo também para discussões relacionadas a arte e sociedade, sendo Niétotchka a narradora desse pequeno painel da sociedade russa. Educação - Outro problema que a obra traz à tona é o da educação das crianças. Madame Léotard representa as idéias francesas sobre o tema. Em determinado momento, ela entre em choque com o príncipe. Ele ataca frontalmente o francês Jean-Jacques Rousseau: "Jean-Jacques Rousseau não devia ousar falar de educação, não tinha nenhum direito de falar disso. Jean-Jacques Rousseau renegou os próprios filhos, minha senhora! Jean-Jacques era um homem ruim, senhora!", diz o príncipe, ecoando idéias de Dostoievski. Mais à frente, o método rigoroso de Léotard se defronta com o anárquico de Aleksandra - que se mostra muito mais complexo e eficiente. Niétotchka Niezvânova foi lançado, em 1961, pela editora José Olympio, já em versão realizada por Schnaiderman. O tradutor decidiu, contudo, revê-la: "Achei indispensável, porque, antes, eu traduzia de forma rígida demais, achava a literatura algo superior", conta ele. "Nós misturamos nas conversas os pronomes; por que não usar isso numa tradução que quer manter um estilo mais coloquial, mais próximo do espírito do original?", pergunta. Para Schaiderman, a atenção dedicada a Dostoievski no Brasil nos últimos anos deve-se ao fato de que sua obra toca em problemas vitais. "O mundo russo tem características muito específicas, mas também tem outras muito próximas do brasileiro", diz. "Sua obra é marcada pelo anticapitalismo, por uma reação ao capitalismo selvagem, algo que parece tocar o leitor brasileiro hoje." Outro aspecto que contribuiu para a difusão de autores russos, na sua opinião, foi o fim do regime soviético: "Muita gente se afastou do mundo russo por conta de desilusões políticas, depois de 1945", diz, referindo-se à polarização ideológica que se inicia após o término na 2.ª Guerra Mundial. "Atualmente, as possibilidades de se familiarizar com esse universo são maiores: há exposições de arte russa, há mais traduções, os livros circulam mais".

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