Sai no Brasil obra essencial de Jung sobre mitologia

Quando O Livro Vermelho de Jung (1875-1961) saiu da caixa de depósito de um banco suíço no ano passado, onde ficou guardado desde a sua morte, a imprensa internacional comparou o acontecimento a uma epifania. Um jornal o chamou de "o cálice sagrado do inconsciente" - e talvez represente isso mesmo para seus seguidores. Exposto até setembro na Biblioteca do Congresso em Washington, o manuscrito com ilustrações do autor foi escrito entre 1914 e 1930 e ficou meio século sob a guarda de seus herdeiros, que vetaram acesso ao livro até 2001.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2010 | 00h00

Finalmente, em outubro do ano passado, a fundação Philemon publicou a obra, agora disponível numa luxuosa edição em fac-símile da Vozes. A única diferença do livro original é a capa - na versão original, ela é de couro vermelho, embalando as 205 páginas do manuscrito com letras góticas e desenhos assinados pelo próprio autor.

Jung começou a escrever esse Livro Vermelho - ou Liber Novus (Novo Livro), como ele o intitulou - em 1913, logo após seu rompimento com Freud, depois de uma associação de seis anos. A história é conhecida: cada vez menos Jung sentia-se à vontade no espaço teórico do mestre. Suas teorias, que enfatizam o lado espiritual da psique e destacam a crença no que ele chamou "inconsciente coletivo", entravam em choque com as ideias freudianas. Há quem aposte em outras razões para o afastamento. Jung teria sofrido um esgotamento nervoso ou um surto psicótico. Afastado da clínica, ele aproveitou o tempo para escrever e desenhar mandalas.

Como as mandalas são usadas pelos praticantes do budismo para meditar e atingir a iluminação, é possível que parte dos achados de Jung se deva a essa busca interior. Definido por alguns como uma "viagem psicodélica", esse "livro vermelho" parece, contudo, mais um testamento sério e menos uma alucinação. Jung dizia que nele estavam quase todas as mandalas que desenhou - e por um tempo achou mesmo que seria capaz de elaborar suas fantasias num nível estético. Frustrado por essa impossibilidade, passou a refletir sobre a responsabilidade ética dessas imagens e foi assim, renunciando à estética e tentando entender o que o inconsciente lhe transmitia, que o Livro Vermelho adquiriu um novo significado em sua vida.

De fato, o próprio Jung referia-se a esse momento existencial como uma experiência, "um confronto voluntário com o inconsciente". Durante os 16 anos em que o psiquiatra se dedicou ao livro, desenhando letras monásticas e mandalas, ele desenvolveu o arsenal teórico que iria revolucionar a história da psicanálise. Dessa exploração teórica saíram termos como inconsciente coletivo, processo de inviduação e, especialmente, uma palavra abominada por seus opositores freudianos: arquétipo.

Dois personagens atuam nessa dimensão arquetípica no Livro Vermelho: Filêmon, identificado como um guia espiritual do autor, e Salomé, sua anima, sua alma feminina, interpretados por ele como produtos do inconsciente coletivo. Um terceiro personagem acompanha a dupla, uma serpente. Pode ser que esses sonhos anotados por Jung não signifiquem muito para os adeptos das teorias freudianas, mas é inegável que eles representaram uma contribuição valiosa para ampliar o terreno da psicoterapia e o entendimento dos mitos numa época dominada pelo racionalismo científico .

O LIVRO VERMELHO

Autor: Carl G.Jung. Editora: Vozes.

371 págs., R$ 480.

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