Sai livro de contos de Tennessee Williams

Grande parte dos leitores conhece, nem que seja apenas por "ouvir falar", a peça de teatro com o sugestivo título de Um Bonde Chamado Desejo - pelo menos em sua versão cinematográfica, de 1951, com Marlon Brando e Vivian Leigh dirigidos por Elia Kazan. A peça, de 1947, a sexta escrita por Tennessee Williams (1911-1983), deu ao seu autor o Prêmio Pulitzer de 1948 e transformou-o, junto com Arthur Miller (1915-2005), num dos mais brilhantes dramaturgos norte-americanos. O que menos se sabe é que Williams também deixou interessante obra de ficção curta e alguma poesia. Com a publicação de 49 Contos de Tennessee Williams, pela Companhia das Letras (696 págs., R$ 46), com traduções de Alexandre Hubner, Fernando de Castro Ferro, Jório Dauster e Sonia Moreira, os brasileiros agora têm acesso à sua obra contística completa. A esmerada edição - de uma série que já nos deu Primo Levi, Scott Fitzgerald, Issac Bashevis Singer e Rubem Fonseca - permite-nos acompanhar a trajetória de Williams, desde o seu primeiro conto, escrito aos 17 anos, A Vingança de Nitócris, até aquele que parece ter sido o último, O Frangote Matador e a Boneca Enrustida (inexplicavelmente intitulado O Frangote Matador e a Galinha Assassina na introdução) de novembro de 1977 - embora Das wasser ist kalt (assim mesmo, em alemão), de 1973, tenha sido concluído apenas em 1979. Acompanha ainda a edição uma excelente introdução de Gore Vidal e o comovente O Homem da Poltrona Estofada, uma nota autobiográfica que esclarece muitas das obsessões temáticas de Tennessee Williams. Embora os contos de Williams às vezes sejam entendidos como meros esboços para sua composição dramatúrgica - nove dos 49 contos foram desenvolvidos posteriormente em peças teatrais -, Gore Vidal mostra-nos, ao contrário, um artista absolutamente compelido ao seu ofício, que reescrevia algumas narrativas "dez ou mais vezes ao longo de dez ou mais anos". E Vidal arrisca uma explicação para a reapropriação de temas em linguagens diversas. "Como a maioria dos escritores natos, Tennessee não conseguia assenhorar-se de sua vida enquanto não escrevesse sobre ela. Isso é comum. O incomum é que, ao fazê-lo, ele não apenas se reapossava do tempo perdido, como também o recuperava de uma forma que ultrapassava em muito a experiência original. No princípio havia, digamos, o desejo sexual por alguém. Consumado ou não, o desejo engendrava devaneios. E os devaneios iam parar no papel, em forma de narrativa. Contudo, se ainda assim o desejo continuava a aguilhoá-lo, Tennessee fazia da narrativa peça e então produzia-a a fim de poder, como Deus, rearranjar a experiência original, transformando-a em algo que não obedecesse mais os desígnios divinos nem fosse inapropriável, mas seu." Essa tentativa de compreender o mundo - ou de encontrar um lugar no mundo - alimentou a carreira de Williams. Se é por amor, como confessa, que constrói seus personagens, é com desconfiança e ressentimento que vê as manifestações da realidade - numa coerência tão impressionante que o escritor, e seus fantasmas, já se encontra inteiro naquele primeiro conto da adolescência. Nele, a rainha egípcia Nitócris, alçada ao trono após o morte do faraó, seu irmão, vítima da conspiração dos nobres, planeja e executa uma terrível vingança... e se mata depois. Baseado num passo de Heródoto, Williams reconhece nesta narrativa a chave ou a "linha diretriz" que nortearia a maior parte de sua obra: o ressentimento e crueldade a serviço de uma visão pessimista do ser humano. O alcoolismo do pai, o egoísmo da mãe - que o ensinou a "esperar mais amor e delicadeza do mundo do que ela própria jamais poderia oferecer" e que o teria "transformado num maricas", segundo suas palavras -, a lobotomia sofrida pela irmã Rose em 1943 (que motivou a peça De Repente, no Último Verão, de 1957, tornada filme com Elisabeth Taylor dirigida por Joseph Mankiewicz, em 1959), sua assumida homossexualidade num ambiente machista determinaram o homem atormentado e o escritor incisivo, crítico da sociedade hipócrita e das limitações das convenções sociais. Destaque para algumas narrativas, como Balas Sortidas, Dois na Gandaia, Grand, Os Mistérios de Joy Rio, A Noite do Iguana, A Semelhança entre Um Estojo de Violino e Um Ataúde, A Velha Casa de Mamãe, Vinte e Sete Carretas de Algodão e Um Passatempo de Verão - este, transformado em 1955 na peça Cat on a Hot Tin Roof (em português, Gata em Teto de Zinco Quente), que deu a Williams o seu segundo Prêmio Pulitzer e que virou filme, em 1958, com Elisabeth Taylor e Paul Newman dirigidos por Richard Brooks. Não fosse por nenhum outro motivo, só por seus desdobramentos em peças e filmes já valeria a pena ler os contos de Williams. Mas, ele oferece muito mais que isso. Só lendo para concordar... Luiz Ruffato é escritor, autor de Mamma, Son tanto Felice e O Mundo Inimigo

Agencia Estado,

23 de abril de 2006 | 16h09

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