Sai em DVD 1.ª temporada de série sobre guerra do Iraque

Foi o tema dominante na recente eleição legislativa nos EUA. O presidente George W. Bush queria manter os temas da campanha ligados à situação interna do país - déficit público, problemas regionais. A oposição transformou a Guerra do Iraque em cavalo de batalha, como se coubesse ao Legislativo a decisão de trazer as tropas (os "nossos rapazes", our boys) para os EUA. Não está sendo fácil para o país conviver com as numerosas baixas. Bush não cede e, até a eleição do dia 7, prometia a vitória a qualquer custo, o que significa que muita gente ainda terá de morrer. A guerra do Iraque é o tema da série Over There, da qual Chris Gerolmo, o roteirista de Mississippi em Chamas, é o principal escritor. O show mais violento da história da TV americana - assim a crítica dos EUA já se referiu a Over There. "Não é o programa que é violento, é a própria guerra", disse Gerolmo numa entrevista por telefone. A primeira temporada de Over There acaba de sair em DVD pela Fox. São mais de dez horas de programa, incluindo extras. A série virou cult, mas provocou tanta polêmica que uma segunda temporada ainda não saiu do projeto. É mais provável que Over There vire filme. Houve uma pergunta que não foi feita - quando o repórter fez a entrevista, há duas semanas, ainda não havia sido divulgado o caso dos quatro soldados levados à corte marcial pelo estupro e assassinato de uma garota iraquiana de 14 anos. O alto comando pede uma punição exemplar para os "monstros". A oposição argumenta que o caso não é isolado e, sim, representativo da deterioração moral que vem acompanhando as ações americanas dentro e fora dos EUA, sob a administração Bush. Foi o que esteve em discussão na eleição do dia 7. Há uma cruzada pelo retorno aos valores que fizeram dos EUA uma grande nação. Pode estar produzindo resultados - os democratas reassumiram o controle da Câmara, infligindo ao presidente uma derrota histórica que o levou a barganhar com a futura líder na Câmara, Nancy Pelosi. Até que ponto isso representa um avanço, só o tempo dirá. Nancy é considerada ultraliberal, mas os democratas, no poder, muitas vezes conseguiram ser mais reacionários que os republicanos, em termos de política externa. Gerolmo disse ao repórter que a série não toma necessariamente partido contra Bush. "Se você me perguntar, eu sou contra a intervenção americana no Iraque e não vejo nenhuma possibilidade de solução à vista. Bush não vai sair, porque o recuo seria sinal de fraqueza, após tudo o que ele disse. A situação interna do Iraque também é precária. Se sairmos agora, haverá um banho de sangue. Por tudo isso, acho que deveríamos prosseguir com a série, pois material não vai faltar. Nosso objetivo é mostrar o drama de nossos soldados no Iraque e o impacto sobre suas famílias nos EUA." Gerolmo revela ter devorado, no último ano e meio, tudo o que se escreveu sobre a Guerra do Iraque - livros, reportagens, pesquisas de campo. Over There estreou na TV americana em julho do ano passado. Teve somente uma temporada, gravada em TV de alta definição, acompanhando as ações de um pelotão fictício da 3.ª Divisão de Infantaria do Exército americano. As cenas supostamente ambientadas no Iraque foram feitas no deserto da Califórnia e as cenas com familiares dos soldados se passam todas ao redor de Los Angeles. O realismo de cena é brutal. Num episódio, um tanque passa sobre um soldado e arranca um braço do cara. Em outro, o tiro atinge o estômago e as vísceras de outro soldado ficam de fora, como naquela cena de Falcão Negra em Perigo, de Ridley Scott. O piloto foi desenvolvido por Steven Brochco, que também criou New York Police Department (NYPD). Deveria ter sido produzida por UPN, que desistiu, sob a alegação de que o programa não interessava ao mercado externo e a empresa não estava conseguindo vendê-lo. É muito mais provável que tenha havido algum tipo de pressão da Casa Branca ou de seus aliados, pois Over There é exibido, atualmente, na TV paga de mais de cem países ao redor do mundo. O título, Over There, vem da canção de George McCohan, de 1917, quando soldados dos EUA foram lutar na Europa, na 1.ª Guerra Mundial. Quando Brochco, que se manteve no posto de produtor de Over There, propôs a Chris Gerolmo que se juntasse à série, como roteirista, ele não pensou duas vezes. "Sabia que seria duro, mas não podia perder essa oportunidade de trabalhar ficcionalmente um assunto que mobiliza tanto o público, no país e no exterior. Se não fosse verdade, não estaríamos falando agora." Gerolmo insiste em responder aos que dizem que a série não expressa nenhuma opinião sobre o conflito. "Qualquer que fosse a opinião que externássemos, seríamos acusados de parcialidade. Filmamos os dramas dos soldados e isso, por si só, é tão forte que vale mais do que a opinião que poderíamos colocar na TV." Ele também dá de ombros quando dizem que Over There não tem nenhum outro ponto de vista senão o de mostrar os horrores do campo de combate. "Mostramos o que muita gente não gostaria de ver, mas está ocorrendo." Ele admira o cinema operístico de Francis Ford Coppola (Apocalypse Now), mas seu modelo de filme de guerra é Full Metal Jacket (Nascido para Matar), de Stanley Kubrick. "Podem existir filmes melhores, e o próprio Kubrick fez Glória Feita de Sangue, mas a desolação da paisagem e a relação entre nossos soldados e os nativos fazem daquele filme um marco que serviu de inspiração para o nosso Over There." Over There. EUA/2005. 1.ª temporada completa. DVD da Fox. Preço sugerido: R$ 99,90

Agencia Estado,

14 Novembro 2006 | 11h25

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