Jotabê Medeiros/AE
Jotabê Medeiros/AE

Sai do chão, Ceará!

Reportagem do Estado foi assistir em Fortaleza, na sexta, ao início da grande excursão nacional dos Black Eyed Peas

Jotabê Medeiros / FORTALEZA, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2010 | 00h00

O tempo esteve formidável, mormaço de praia com ventinho. Mas, na contramão da meteorologia, teve chuva de papel picado, chuva de lasers, chuva de batidas supersônicas graves nos ouvidos, chuva de bailarinas na passarela, chuva de elogios ao Brasil e até chuva de calcinha atirada da plateia.

A estreia da turnê do grupo Black Eyed Peas no Brasil, na sexta à noite, na Praia de Iracema, em Fortaleza, foi um show de precisão tecnológica e de entretenimento leve, calculado, milimetricamente coreografado. Tecnologicamente, é como se fosse um cruzamento de um show de Kanye West com Madonna - reúne o delírio operístico do primeiro com as engenhocas que fundem a dança orgânica com a dança eletrônica da segunda.

É a maior turnê de um artista internacional (no topo) no Brasil, com 9 capitais no roteiro e 300 mil ingressos vendidos. Detalhe: não se trata de um artista decadente. Eles estão no auge, são provavelmente a banda de maior sucesso nos Estados Unidos atualmente. Chegam ao Morumbi no dia 4 de novembro. No meio do show, após elogios às "bundas" brasileiras, à ginga nativa, aos nobres sentimentos nacionais, o líder dos Black Eyed Peas, Will.i.am (um gênio da produção, diga-se), chegou a prometer que vai morar aqui um dia.

O "conceito" do show é retrofuturista (casacos de generais prussianos e vestidos que pareciam desenhados pelo cartunista Moebius se juntam a robôs de luz e naves interplanetárias). O grupo entra e sai de um contêiner de portas automáticas no centro do palco, sob a banda. E conta com apoio de grupo competentíssimo de bailarinas (às vezes quatro em cena, às vezes oito) que usam costumes de HQs na maior parte do tempo, e fazem mélange pós-moderno de elementos da cultura egípcia, Ray Bradbury, Terminator, Japão medieval, a Elektra de Frank Miller e por aí vai.

Platô. É um show marcadamente eletrônico e que vai progressivamente se "desnudando" até o final. No início, a banda (dois guitarristas, baterista, DJ e tecladista) toca num platô no fundo do palco (da altura de um prédio de seis andares), e só os quatro líderes vocais ficam à frente (Fergie, Will, Taboo e Apl.de.Ap). No meio do show, o guitarrista desce e "sola" no chão. Depois, dois violonistas acompanham Fergie pela passarela (em forma de ferradura, a pista que a banda usa em todo o show "segrega" uma parte da plateia num curralzinho; o povo só tem saída pelas laterais do palco, mas ninguém consegue chegar lá). Por fim, as bailarinas aparecem apenas semivestidas com suas fantasias, como se o Black Eyed Peas evidenciasse "fellinianamente" seus próprios truques para a plateia, deixando somente a música prevalecer no set final.

O grupo, à moda de banda de jazz, tem solos individuais de todos os integrantes - Taboo tem momento hispânico com participação virtual do colombiano Juanes; Apl.de.ap mostra admirável fôlego de break dance no chão; Fergie tenta provar que também sabe cantar e por três vezes sustenta um berro sobre a multidão, que uiva em retorno.

Mas o momento mais marcante é quando Will.i.am surge dentro de armadura de robô e vai até o centro da "ferradura", no meio do palco. Ali, há apenas um laptop e equipamento de DJ. Um elevador hidráulico o ergue a uns três metros de altura no meio do público e ele manda uma sequência pop de FM, riffs ultraconhecidos de rock e de dance, culminando com uma pequena homenagem a Michael Jackson (que Will ajudava a produzir na época da tragédia). Ele sai do púlpito cantando Sweet Dreams (Are made of This), hit do Eurythmics, já cantada por gente tão diferente quanto Marilyn Manson e Beyoncé.

Em Fortaleza, a banda ficou por 2h10 no palco, eufórica, e Taboo chegou a recolher uma calcinha atirada por uma fã. Will se despediu com um longo discurso a respeito do seu "país favorito", o Brasil. Fergie, cuja sobremesa na véspera tinha sido rapadura com coco, falou um pouco, antes de entrar no palco, de como inveja a técnica das cantoras brasileiras (é fã de Astrud Gilberto). O Black Eyed Peas intui que algo acontece aqui neste lado dos trópicos e, mais do que faturar, parece também querer compreender (perseguidos por Sabrina Sato, logo descobrirão o lado autodestrutivo desse paraíso aqui).

Barulho. Como é de se esperar, a plateia enlouquece nos hits, faz coreografias ensaiadinhas como num Xou da Xuxa, e o telão ajuda a comandar a massa (o velho truque do "Make some noise"). A banda convidou ao palco, durante a execução de Mas que Nada, de Jorge Benjor, 19 bailarinas brasileiras para mostrar a "ginga" genuinamente nacional. Eram 20, mas uma delas, Silvana, ficou presa no trânsito e não conseguiu chegar.

Esteiras rolantes, telões de altíssimo impacto, visual de Teen Titans do Cartoon Network e um som que se ouvia em toda a Praia de Iracema: MCs das diversões eletrônicas, os Black Eyed Peas estão "in the house". Para o bem ou para o mal, ninguém vai conseguir ficar parado.

SET LIST

Let"s get it Started

Rock that Body

Meet me Halfway

Alive

Don"t Phunk with my Heart

Imma Be

My Humps

Mas que Nada

Missing You

Bebot

Rocking to the Beat

Fergalicious/Glamourous

Big Girls

DJ Set (com Will.i.am)

Pump it

Don"t Lie

Shut Up

Where"s the Love

Showdown/Party all time

Boom Boom Pow

I gotta feeling

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.