Sai coletânea de textos críticos de Edmar Pereira

Quem conviveu com Edmar Pereira só pode ficar muito feliz com a publicação pelo selo Aplauso da Imprensa Oficial desta coletânea de suas críticas de cinema escritas para o Jornal da Tarde. O título, emprestado de um filme que Edmar não chegou a ver, não poderia ser mais adequado - Razão e Sensibilidade. Eram essas as duas vertentes que orientavam seu olhar sobre o cinema, e a maneira como transpunha essa experiência para o jornal. A organização do volume se deve ao crítico do Estado Luiz Carlos Merten, que também assina a inspirada apresentação do autor, intitulada O Crítico Poeta. Merten lembra que Edmar não foi apenas um crítico de cinema, embora esta tenha sido a sua área de atuação mais freqüente - foi um jornalista cultural no sentido amplo. Tanto assim, que seu primeiro texto, ao chegar ao JT em 1974, era sobre a cantora Billie Holiday. O último, em 1993, sob o pseudônimo de E. Araújo, foi sobre Noites Felinas, filme em que o diretor Ciryl Collard fala, em transe, sobre sua convivência com a aids. Tema também de Edmar, que pouco depois desse artigo morreu de complicações decorrentes da doença. Essas são as circunstâncias da vida. Essas e outras, como o fato de Edmar ter vindo do meio rural de Minas Gerais, mundo rústico que em nada o preparava para a sofisticação intelectual exigida pela crítica da cultura. Pois bem, essa trajetória de Edmar poderia ser resumida pelo título do artigo que dedicou ao seu filme favorito - "Uma maravilhosa viagem entre a imbecilidade e o entendimento". E que filme era esse? Pai Patrão, obra-prima dos irmãos Taviani, que mostra como o meio hostil não precisa ser uma limitação inexorável, mas pode se tornar estímulo para progredir. É possível que esse sentimento de origem tenha acompanhado o crítico quando ele enfim se formou. E o tenha dotado da sensibilidade que precisa se somar ao equipamento intelectual para formar um crítico de fato interessante. Quer dizer, bom escritor, capaz de julgamento e análise, mas que não se sente superior ao seu objeto. Sente-se, no melhor dos casos, parte dele e seu cúmplice. Basta ler, a título de exemplo, o artigo sobre Memórias do Cárcere, de Nelson Pereira dos Santos, publicado em junho de 1984 pelo JT. O texto, bastante longo para os padrões de hoje, deveria ser estudado em escolas de jornalismo, em especial por aqueles que desejem atuar na área cultural. Situa o escritor e as contingências que o levaram à prisão e depois ao livro que relata essa experiência. Fala de como o cineasta precisou adequar-se à seca precisão da prosa de Graciliano Ramos para ser fiel ao seu estilo. Descreve a escolha do elenco, comenta o enredo e analisa o filme. Busca seu sentido naquele momento difícil da história brasileira, quando o País tentava sair de um longo período ditatorial. Enfim, descreve, informa e interpreta. Situa a obra, com elegância e generosidade. É um exemplo entre tantos. Ao longo do livro, Edmar fala com igual fluência de filmes como os Chefões, de Coppola, A Última Tentação de Cristo, de Scorsese, Ran, de Kurosawa. Nessa trajetória crítica, há um "objeto" privilegiado - o cinema nacional. Mesmo quando não é o que idealmente dele se espera, sempre é o nosso cinema. E Edmar sabia que um crítico não é completo se não puder refletir sobre o cinema do seu país. Essa relação, necessária e problemática entre o local e o universal, Edmar exprimia citando o verso de Fernando Pessoa: "...mas o Tejo não é mais belo do que o rio de minha aldeia, porque o Tejo não é o rio que passa pela minha aldeia...". Não precisava dizer mais.

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