Sai biografia e songbook de Humberto Teixeira

Em luxuosa e supercolorida edição dupla (biografia e songbook), pop e bilíngüe (português e inglês), o Cancioneiro Humberto Teixeira (Jobim Music/Good Ju-Ju, R$ 176) tem quatro nomes também envolvidos no projeto do CD O Doutor do Baião (Biscoito Fino), de 2002: Denise Dummont, Ana Lontra Jobim, Wagner Tiso e Gringo Cardia. As duas idealizaram o projeto; Tiso fez os arranjos das canções, 41 das principais transcritas em partituras e letras no songbook; Cardia assina o design gráfico.Das 18 faixas do CD - o único em catálogo dedicado exclusivamente à obra de Teixeira -, 14 foram gravadas o num show realizado no Teatro Rival (centro do Rio). O repertório desse show, gancho inicial para o documentário de Denise e Lírio Ferreira, reuniu os êxitos mais populares de Teixeira, entre eles célebres parcerias com Luiz Gonzaga (1912-1989), como Baião, Juazeiro, Respeita Januário, Qui Nem Jiló, Assum Preto e, claro, Asa Branca. Com outro mestre, Sivuca (1930-2006), fez Adeus, Maria Fulô, que os Mutantes modernizaram em 1968. Outra de suas mais belas composições é o samba Deus me Perdoe, com Lauro Maia. Foi Maia quem o apresentou a Gonzaga, que, além de parceiro mais importante, foi seu maior intérprete até por conta disso. Como conseqüência natural, as gerações de nordestinos que nasceram e cresceram ouvindo suas canções - Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Elba Ramalho, Fagner, Lenine, todos presentes no CD, mais Alceu Valença, outro notório discípulo da escola gonzaguiana que ficou de fora - revelam nítidas influências. Além dos citados, seu cancioneiro está espalhado pelo repertório de gente como Jackson do Pandeiro, Jamelão, Ivon Curi, Carmélia Alves, Dalva de Oliveira (como o grande sucesso Kalu), Maria Alcina, etc, além das incontáveis gravações de Asa Branca (Maria Bethânia, Dominguinhos, Elis Regina e Hermeto Pascoal, Baden Powell, Geraldo Vandré, Joyce, Toquinho, Caetano, entre outros).Só que Teixeira, autor de 173 composições listadas no songbook, poucas vezes teve os valores enaltecidos, por passar décadas à sombra do parceiro mais famoso. ?Prática comum naquela época, principalmente quando havia uma estrela como parceiro, era que esta celebridade reivindicasse co-autoria em obras que, de fato, não tinha feito?, lembra o pesquisador Ricardo Cravo Albin, autor do texto da biografia. O próprio Gonzagão revelou que não escreveu uma nota de Mangaratiba, que recebeu pronta de Teixeira, mas, responsável pelo sucesso da composição, acabou levando o crédito de co-autor.Já era tempo, portanto, que Teixeira tivesse o reconhecimento por sua obra fundamental. Gonzagão foi seu grande estimulador no universo do baião, mas ao contrário do que se afirmava, não foi ele o inventor do gênero do qual o parceiro se tornou o rei. ?O baião sempre existiu nas quebradas do sertão, sempre foi música do povo?, afirmou Teixeira em declaração reproduzida na biografia. ?Não inventei o baião; jamais tive essa pretensão?, dizia ele. Não inventou, mas bastou para garantir seu lugar na eternidade que tivesse composto Asa Branca, que, como bem lembra Albin, é, ao lado de Aquarela do Brasil (Ary Barroso), o grande hino afetivo nacional.

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