Sai biografia do criador de "O Senhor dos Anéis"

Uma voz destoou em meio à grande excitação que rodeava a estréia de O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel, no fim do ano passado, filme que se tornou um grande sucesso em diversos países. "Se estivesse vivo, o autor do livro, J. R. R. Tolkien, certamente detestaria a versão cinematográfica de sua obra", afirmou o escritor inglês Michael White, em meio à supresa geral. "Ele detestava Hollywood e fecharia os olhos para o filme."White sentia-se seguro em fazer a afirmação depois de passar vários meses pesquisando a vida de um dos escritores mais cultuados pelo público, no século passado. O resultado é o livro Tolkien - Uma Biografia (308 páginas, R$ 39), lançado recentemente pela Imago, um trabalho em que buscou desvendar os impulsos mais íntimos de John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973), cujos romances venderam mais de 160 milhões de exemplares e são, em parte, responsáveis pela germinação de todo o gênero da ficção da fantasia.White, que escrevera as biografias de Isaac Newton, Stephen Hawking e Leonardo da Vinci, descobriu um homem de personalidade complexa - se por um lado revelava um fascínio por idiomas diversos e por histórias ambientadas na Idade Média (suas ficções preferidas durante a infância), Tolkien demonstrou ser, além de um dedicado professor, um homem muito ciumento e extraordinariamente possessivo com relação aos amigos. Ao mesmo tempo, ficava ressentido com eles quando conquistavam reconhecimento e sucesso."Tolkien era um homem bom, honesto, digno de confiança, mas não se incluía na fila para canonização", afirma White, que consultou desde uma vasta bibliografia até boa parte dos 450 mil sites relacionados a Tolkien ou a O Senhor dos Anéis. O mais curioso, segundo ele, foi descobrir que o material considerado oficial era superficial e subjetivo.White considerou também a biografia escrita por Humphrey Carpenter, uma das mais completas sobre o escritor, mas buscou, como gosta de dizer, "identificar os demônios pessoais do homem". Assim, levantou uma série de informações curiosas, como o risco de morte logo no primeiro ano de vida de Tolkien (foi mordido por aranha e salvo por uma babá, que sugou o veneno) até a inusitada inspiração para escrever uma das obras que o imortalizaram.A cena é habilmente relatada logo no primeiro capítulo do livro ? obrigado a sustentar mulher e quatro filhos, Tolkien submete-se ao tedioso trabalho de ensinar adolescentes beirando os 16 anos. Assim, em uma tarde de 1930, instalado no escritório de sua casa, ele corrige as dissertações de seus alunos.Criterioso, Tolkien lê com atenção, fazendo anotações nas laterais. Depois de ler a abertura de mais uma dissertação, ele se surpreende ao virar uma página e encontrar uma folha em branco. Fazendo uma pausa, ele olha o escritório em volta até descobrir um buraco no tapete. Fita-o durante alguns instantes até escrever, no papel em branco: "Num buraco no chão, morava um Hobbit..."Era o rascunho de uma idéia que, desenvolvida, resultaria em O Hobbit (Martins Fontes), publicado em 1937, mesmo ano em que iniciaria O Senhor dos Anéis, cuja primeira edição só sairia em agosto de 1954. "A obra, obrigatória da contracultura que surgia na época, trouxe tanto uma recompensa financeira como despertou a curiosidade de fãs obsessivos, que ligavam para ele em todas as horas da noite, tornando-o uma pessoa arredia", conta White, em entrevista concedida à Agência Estado.

Agencia Estado,

23 de agosto de 2002 | 16h25

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