Sai biografia de Juscelino Kubitscheck

Os inconfidentes mineiros de 1789 já pretendiam mudar a capital do Brasil para o interior. A idéia era defendida também pelo pioneiro de nossa imprensa, Hipólito da Costa, em 1813, e por José Bonifácio, que apresentou um projeto nesse sentido em 1823, sugerindo até o nome Brasília. A proposta, retomada em 1891, foi aprovada na Constituição republicana, mas, como várias leis que "não pegam", acabou sendo adiada, para reaparecer na Carta Magna de 1946.Em 1955, Juscelino Kubitscheck de Oliveira (1902-1976) era candidato a presidente da República, e sua principal plataforma era crescer "50 anos em cinco", por meio do Plano de Metas, que enfatizava investimentos em energia, transporte e nas "indústrias de base". JK identificou na antiga diretriz constitucional uma saída para se distanciar das pressões políticas e do clima de golpismo do Rio de Janeiro. Assim, Brasília, que originalmente estava fora das metas, tornou-se a "meta-síntese". Mais que um compromisso, viraria paixão do presidente eleito, levando o povo um dia a cantar o Peixe Vivo com outros versos: "Como pode o Juscelino / viver longe de Brasília?"Iniciada sem que se soubesse ao certo quanto ia custar ou como seria financiada, a capital foi erguida em tempo recorde. Nas obras, trabalharam mais de 65 mil "candangos", a maioria fugindo das secas que castigavam o Nordeste.Os quatro anos até a inauguração foram conturbados: JK enfrentou revoltas militares, manifestações públicas contra o governo e ondas de greves. A situação econômica era grave: a inflação e a dívida externa cresciam; as pressões do FMI eram grandes, resultando na queda de um ministro da Fazenda e, depois, no rompimento das negociações com o Fundo. Externamente, era tempo da ideológica "Guerra Fria" entre as superpotências Estados Unidos e União Soviética, que se empenhavam nas corridas espacial e armamentista.Presidente Bossa Nova - Mas, no esporte, o Brasil colecionava vitórias, sendo a mais importante a conquista da primeira Copa do Mundo de Futebol, em 1958. Havia uma espécie de euforia desenvolvimentista no país que, associada à democracia, estimulava inclusive a criação artística das "vanguardas": no teatro, ganhavam espaço os grupos "Arena" e "Oficina"; na poesia, nasciam os movimentos concretista e práxis; surgia o CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE (União Nacional de Estudantes); na música, eclodia a bossa-nova, que iria se associar ao nome de Juscelino, como na modinha Presidente Bossa Nova, de Juca Chaves:"Bossa nova / mesmo é ser presidente / desta terra descoberta por Cabral. / Para tanto basta ser tão simplesmente / simpático, dinâmico, original."Foi nesse ambiente que se fez Brasília, cuja inauguração foi marcada por JK para o dia 21 de abril de 1960, em homenagem a Tiradentes, o mártir da Inconfidência. Os líderes da oposição faziam denúncias e protestos, achando que a obra seria um fracasso irreversível para a carreira política de JK. Consideravam-na "faraônica". Juscelino, a propósito, não negava ter-se inspirado no faraó Akhenaton, que construiu a nova capital do Egito em Tell El-Amarna.Polêmica desde o início, Brasília foi chamada por Roberto Campos de "bazar de ilusões e perfeito exemplo de mau gosto monumental". Em 1987, exatamente pelo arrojo de sua arquitetura foi declarada pela Unesco Patrimônio Cultural da Humanidade. As histórias da construção da capital, que, de tão "filha" de Juscelino mereceria ter o sobrenome de seu idealizador, são o fio condutor deste Brasília Kubitscheck de Oliveira. O livro é resultado de uma extensa pesquisa, complementada por fotos e depoimentos de pessoas ligadas à cidade.Crescimento e inflação - O autor, mineiro como JK, é Ronaldo Costa Couto, economista e historiador com um extenso currículo na administração pública, uma testemunha privilegiada da História brasileira recente. Ocupou vários Ministérios: designado para o do Interior por Tancredo Neves, foi confirmado por José Sarney, em cujo governo exerceu depois as pastas do Gabinete Civil e, cumulativamente, a do Trabalho. No início de 1985, foi também governador interino de Brasília, da qual é cidadão honorário. Atual conselheiro do Tribunal de Contas do Distrito Federal, Costa Couto publicou ainda "Tancredo Vivo - Casos e Acaso" (1995), "História Indiscreta da Ditadura e da Abertura" (1998), "Memória Viva do Regime Militar" (1999) e "A História Viva do BID e o Brasil" (1999).Incluindo a descrição dos últimos anos de Juscelino, desde a cassação e o exílio até a morte num acidente até hoje questionado, Costa Couto nos dá, com sua prosa pontilhada de episódios curiosos, uma aula sobre o Brasil dos anos JK: tempos contraditórios em que conviviam democracia, crescimento e inflação, sob o comando de um presidente que, em novembro de 1999, seria escolhido o Brasileiro do Século.Serviço: Brasília Kubitscheck De Oliveira, de Ronaldo Costa Couto. Record, 400 págs.

Agencia Estado,

30 de outubro de 2001 | 20h02

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