Sai biografia de Augusten Burroughs que foi parar no cinema

Para quem só leu o primeiro romance aos 23 anos, até que Augusten Burroughs não pode reclamar da carreira como escritor. Correndo com Tesouras (272 págs., R$ 34,90), seu primeiro trabalho publicado, que chega agora às livrarias brasileiras com o selo Ediouro, está há dois anos e meio na lista dos mais vendidos do New York Times. Melhor: sonho de todo autor que quer se tornar popular, o livro ganhou uma versão cinematográfica ano passado, assinada pelo diretor Ryan Murphy e estrelada pela atriz Annette Bening. Nada mau para quem ousou expor em livro as memórias de uma infância passada entre uma mãe mentalmente instável e um psiquiatra excêntrico."Sei que tive uma infância difícil, meio maluca mas, na verdade, posso me considerar uma pessoa de sorte, porque aquela experiência me ajudou a desenvolver qualidades úteis para toda a vida", diz Burroughs, de 41 anos, em entrevista ao Estado, em Los Angeles, durante o lançamento do filme de Murphy. "Sabia, mesmo quando criança, que aquele período era único e que eu estava atravessando uma fase que me seria útil na vida adulta. Aprendi, por exemplo, a não me importar obsessivamente com o que as pessoas pensam ou esperam de mim. Sempre fui uma pessoa forte, habilidosa, qualidades desenvolvidas em função da infância problemática.""Problemática" é um eufemismo para "profundamente perturbadora". Batizado como Christopher Robinson, Burroughs mudou de nome aos 18 anos. Talvez para separá-lo de vez do passado dickenseniano, marcado pelas imagens da mãe psicótica com mania de grandeza, do pai alcoólatra e distante, dos abusos sexuais e do sentimento de abandono. No livro, Burroughs usa o bom humor e referências da cultura pop da época (anos 70), como filmes, seriados de TV e músicas, como mecanismo de defesa.Tormentos de Burroughs"Quem Tem Medo de Virginia Woolf? fora filmado numa casinha branca do campus (da faculdade Smith), logo depois do galpão dos barcos, perto da cachoeira. Assisti ao filme e era completamente apaixonado por ele, porque Elizabeth Taylor e Richard Burton me lembravam muito meus pais. Aquilo era o que eu tinha de mais próximo de um filme caseiro", conta Burroughs no livro, na página 198, resumindo a vida em família. "Eu ficava deslumbrado com a visão que mamãe tinha de sua doença mental. Para ela, ter um surto psicótico era como ir para um retiro de artistas", conta, descrevendo o comportamento destrutivo da mãe, na página 191.Os tormentos de Burroughs começaram aos 13 anos. Nessa época, o irmão mais velho, John, que viria a ser diagnosticado como vítima da síndrome de Asperger, uma forma branda de autismo ("isso explicou o fascínio dele por carros, o jeito peculiar de falar e a natureza brusca... além do desinteresse em discutir longamente o seriado Um É pouco, Dois É Bom, Três É demais), havia abandonado a casa paterna e os pais já não moravam sob o mesmo teto. Embora admirasse a mãe, Margaret Robinson (Deidre no livro), uma aspirante a poetisa, viver sozinho com ela não era o que se poderia chamar de paraíso terreno. Dona de um extenso histórico de crises de depressão e ataques psicóticos, Margaret entregou a guarda do filho ao seu psiquiatra, doutor Rodolph Harvey Turcotte (Finch no livro).Doutor Finch, como Turcotte foi batizado no livro, também não batia muito bem da bola. Ele morava com a mulher, os seis filhos e alguns de seus pacientes mais problemáticos em uma velha e bagunçada casa vitoriana caindo aos pedaços que, segundo Burroughs, "cheirava a cachorro molhado e... ovos fritos". O doutor se dizia capaz de adivinhar o futuro interpretando o formato dos próprios excrementos. Turcotte mantinha um espaço privado ao lado da sala de consultas a qual chamava de "masturbatorium", onde podia se entregar aos prazeres solitários entre um paciente e outro.Identificação com a históriaO psiquiatra de comportamento excêntrico também incentivou o relacionamento sexual entre Burroughs, então com 14 anos e inteiramente consciente de suas inclinações sexuais, e um de seus pacientes "internos", de 33 anos. Nenhum detalhe dessa tumultuada, bizarra e fascinante trajetória é relatado com rancor ou remorso. Como bem observou New York Times, Correndo com Tesouras é "uma audaciosa, ultrajante e freqüentemente hilariante reportagem do que de fato parece ser uma séria história infeliz". Talvez o tom celebratório do livro, enaltecedor de uma infância que para muitos poderia ser considerada trágica, tenha ajudado a transformar as memórias de Burroughs em best-seller."É impossível fazer especulações sobre as razões que levam uma obra a se tornar um sucesso de vendas ou não. O que posso dizer a respeito da comunicabilidade do livro vem de minha experiência pessoal com os leitores", observa Burroughs. "Muitas pessoas se aproximam de mim para dizer que tiveram uma infância muito parecida com a minha. Há também aqueles que dizem que tiveram uma infância maravilhosa e ficaram fascinados por ler sobre a trajetória de alguém que não teve a mesma sorte que elas. E há aqueles que disseram ter mandado flores para as mães depois de ler o livro. Todas, sem exceção, são formas diferentes de se identificar com a história", analisa o autor.Burroughs, que depois já escreveu dois outros livros inspirados em suas memórias, Sellevision, Dry e Magical Thinking, não sabe se voltará aos diários desenvolvidos na juventude para um novo mergulho no passado. "Talvez volte à minha família, para contar mais histórias sobre meu pai e meu complexo relacionamento com ele. Mas adoro ficção. Já escrevi três romances e só publiquei um. Adoro ficção porque é um gênero aberto, não sei exatamente o que pode acontecer de um momento para outro. É como pular de pára-quedas sem um pára-quedas reserva, porque não sei como o livro funcionará. A gente só tem de confiar no seu subconsciente e que funcionará."

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