Sagrado e profano

No centenário de Nelson Rodrigues, a peça Os Sete Gatinhos ganha versão que acirra suas contradições

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2012 | 03h11

Um cordeiro imaculado para tirar o pecado do mundo. Transfigurado, o pressuposto católico serve de esteio à trama de Os Sete Gatinhos, texto de Nelson Rodrigues que merece nova montagem, a partir de amanhã, no Teatro de Arena.

Dirigida por Nelson Baskerville, a peça integra uma mostra em homenagem ao centenário do dramaturgo, comemorado este ano. Trata da história de uma família de cinco filhas. Todas elas prostituídas. Menos uma, Silene. Na caçula virgem, "seu" Noronha e o restante do clã depositam suas ilusões de pureza. "Silene era virgem por nós, anjo por nós, menina por nós", diz o personagem do pai, defendido pelo ator Renato Borghi.

Considerada uma das "tragédias cariocas" do escritor, Os Sete Gatinhos não prescinde do lastro mítico que caracteriza a ficção rodriguiana. Aqui, porém, a obra também carrega os ecos da zona norte do Rio de Janeiro.

Estamos no bairro do Grajaú. O patriarca é um contínuo da Câmara dos Deputados, referência que reforça certo realismo social do texto: a pobreza a condicionar a danação ética. Também não faltam menções ao espiritismo e a outras crenças.

Obviamente, a presença de presságios e adivinhações pode ser relacionada às tragédias gregas. Mas não somente. Uma dose de misticismo tipicamente brasileiro suporta o enredo. E é aí que o diretor Nelson Baskerville encontra o mote para conduzir sua encenação: no fanatismo religioso. "Nelson sintetiza em Os Sete Gatinhos o sincretismo brasileiro e também um traço fanático. Os personagens atribuem tudo ao sobrenatural", observa o diretor.

No cenário não faltam referências aos santos católicos e a símbolos de outras religiões, como o candomblé. A arte de Arthur Bispo do Rosário, gênio esquizofrênico que se acreditava movido por um impulso divino, foi uma das referências para desenhar o espaço: Atulhado, caótico, exuberante.

Ainda que enverede por esse registro específico, a estética empregada não deixa de evocar aquilo que Baskerville fez em outros de seus trabalhos recentes, como Luís Antônio-Gabriela e 17 x Nelson.

O palco lembra um híbrido de terreiro e uma igreja, circundado por fantasmas e por pinturas ultracoloridas - criadas pelo próprio diretor. Em direção semelhante seguem os figurinos, com bordados e assemblages.

Bispo do Rosário não comparece apenas na cenografia. A esquizofrenia é também o caminho que a encenação toma para desvendar as ambiguidades constantes da trama, movida pelas oscilações entre a santidade e o profano, o bem e o mal, a pureza e a perdição. "Na peça, ninguém é uma coisa só", pontua Baskerville. "Todo mundo tem dois lados antagônicos."

Nesse contexto, existe um homem que chora por um olho só. Há, por exemplo, a personagem da mãe submissa (vivida por Élcio Nogueira Seixas), que dá vazão a seus impulsos pornográficos em desenhos e palavrões deixados nas paredes do banheiro.

Nenhuma figura, contudo, reúne tantas contradições quanto Silene. A menina "santa" mata uma gata grávida a pauladas. Tem nojo, asco do ato sexual. Mas não tardará a entregar-se ao gigolô Bibelot. A atual versão chama atenção para os contrastes da protagonista. Empresta-lhe duas vozes distintas, uma delicada, outra gutural. "O espetáculo coloca uma lente de aumento sobre o texto", assume Baskerville.

A opção só acentua o traço cômico da escrita de Nelson. Para qualificar a peça, o próprio autor cunhou o epíteto de "divina comédia", em explícita referência ao livro de Dante. Ao descobrir que Silene não é mais virgem, Noronha transforma a casa em um bordel. "Quando cai o mito da santidade da filha, a barbárie se instala", considera Borghi.

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