Saga dos Corleone terá novo autor

Uma incalculável ansiedade costuma pesar sobre a consciência de um escritor que acaba de assinar um contrato com uma editora para escrever um livro. Todo esse peso deve no mínimo duplicar quando um autor é selecionado para continuar a obra de um colega morto e com um prestígio transatlântico.É o caso de Mark Winegardner, um americano nascido em Ohio há 41 anos, cuja tarefa nos próximos 12 meses será escrever a quarta parte da saga literária inaugurada em 1969 pelo escritor Mario Puzo com o livro O Poderoso Chefão."Estou muito honrado em ter essa oportunidade e darei o melhor de mim para não decepcionar os milhões de fãs do personagem", disse um Winegardner incrédulo e vacilante no sábado, quando a editora Random House anunciou o nome do autor que procurava para escrever mais um capítulo sobre a família Corleone.A procura do escritor ideal começou tão logo o corpo de Mario Puzo desceu à sepultura em 2 de julho de 1999, deixando milhões de dólares na conta bancária, uma incalculável fortuna em direitos autorais e um potencial incomensurável de vendas. De olho nos cifrões que deixaria de ganhar com a morte de seu best seller, Jonathan Karp, editor da Random, anunciou que estava à cata de um autor e acionou agentes literários em todo os EUA.A pressa na substituição deixou indignados os herdeiros de Puzo, mas o constrangimento foi contornado quando a editora estimou em US$ 5 milhões os adiantamentos para a família em direitos autorais pelo uso do título e dos personagens.No ano passado, a caixa de e-mails da Random ficou lotada de sinopses, mais de cem, feitas por autores diferentes, cada um com sua visão sobre o futuro dos mafiosos. Lotada e cheia de disparates. Em uma das propostas, Michael Corleone se apaixona por uma índia ativista. Em outra, o autor se esqueceu de mencionar os Corleone em sua trama. Dois autores foram eliminados de cara por serem britânicos - a editora preferia um americano.Finalmente, a comissão da Randon encarregada de escolher o sucessor de Puzo, que incluía o filho do escritor, Tony, optou por Mark Winegardner, que dirige uma oficina de literatura na Universidade da Flórida e cuja obra mais conhecida é Crooked River Burning (2001), um romance que vendeu pouco mas caiu nas graças da crítica. "Bem-vindo à máfia. Você é o homem", foi o que Mark ouviu quando o editor Karp ligou para sua casa na Flórida para lhe dar a notícia.Ao contrário de Mario Puzo, nascido em um bairro de cortiços habitado por imigrantes italianos em Manhattan e crescido entre as "famiglie" que disputavam o poder na cidade, Mark Winegardner nasceu e cresceu na pacata cidadezinha de Bryan, em Ohio, de oito mil habitadas e cuja grande contribuição à humanidade foram os pirulitos "Dum-Dum" e a lousa mágica. A seu favor, e foi o que deve ter pesado na decisão da Random, está a bem urdida trama de Crooked River Burning, em que ele trata do crime organizado em Cleveland. O livro encontrou pouco público, mas o The New York Times Book Review chegou a compará-lo com obras de John Dos Passos e E.L. Doctorow.A Random House, contudo, não está interessada no que a crítica vai dizer, e sim nos milhões de leitores que se tornaram íntimos dos membros do clã Corleone, cujo primeiro livro, The Godfather (O Poderoso Chefão, na edição brasileira), vendeu mais de 20 milhões de exemplares no mundo todo - O Último Chefão e Omertá são as duas outras obras sobre a máfia.Para saber se teremos um Mario Puzo à altura do original, será preciso esperar até o segundo mestre do ano que vem, quando O Retorno do Poderoso Chefão - título do livro já anunciado pela Random - chegar às livrarias.

Agencia Estado,

10 de fevereiro de 2003 | 11h09

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