John Foley/Opale/Divulgação
John Foley/Opale/Divulgação

Saga do terror da bomba atômica às torres gêmeas

Autora paquistanesa também vem à Flip apresentar Sombras Marcadas, o drama do século 20 resumido em duas famílias

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

21 Junho 2011 | 00h00

Entrevista

Kamila Shamsie

O prólogo do quarto romance da paquistanesa Kamila Shamsie, Sombras Marcadas, o primeiro dela lançado no Brasil, não deixa dúvidas: o leitor está diante de uma autora vigorosa que, aos 38 anos, foi finalista de vários prêmios literários importantes, como o Orange, e agora participa, no dia 7 de julho, da 9ª edição da Flip - Festa Literária Internacional de Paraty.

Sombras Marcadas começa com um homem sendo despido numa cela. Os militares tiram suas algemas, suas roupas e lhe dão em troca um macacão laranja. Ele está prestes a ser mandando para Guantánamo. Enquanto o prisioneiro se pergunta como a situação chegou a esse ponto, a autora desvia a atenção do leitor para o dia 9 de agosto de 1945, quando a Força Aérea americana atirou a bomba atômica Fat Man sobre Nagasaki, onde a tradutora Hiroko, apaixonada pelo alemão Konrad, testemunha o começo de uma tragédia que Kamila Shamsie relaciona com a paranoia contemporânea e o terrorismo.

Os conflitos mundiais, afinal, só mudam de lugar, parece concluir a paquistanesa. Eles são os mesmos e derivam de uma só fonte, a desunião provocada pelo ódio e o ressentimento. Ela não culpa os EUA por todas essas tragédias. O colonialismo inglês foi tão pernicioso quanto a arrogância americana que atirou as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki, diz. O leitor já sabe que não está, portanto, diante de um romance fácil.

Mesmo para a autora, sua evolução foi uma surpresa, pois imaginava sua personagem Hiroko de outra maneira quando começou a escrever o livro. A exemplo dos principais personagens dessa saga, Hiroko é apaixonada por línguas estrangeiras, o que pode sugerir uma personalidade francamente otimista e crente na possibilidade da confraternização universal. Não é exatamente o que acontece. Em alguns momentos, Hiroko conclui que o mundo é um lugar horrível.

Ela tem seus motivos. Em busca de uma nova vida, Hiroko sai do Japão e vai para a Índia, onde passa a viver com a meia-irmã do alemão Konrad. Lá ela conhece Sajjad, empregado da família. Apaixonada, vai com ele para o Paquistão, deixando para trás um país em crise política. Os EUA vão entrar na história quando o filho de Elizabeth, a irmã de Konrad, aparece na história, trazendo com ele a desconfiança e o temor. Ele, afinal, trabalha para a CIA. São três gerações de famílias perseguidas por um mesmo fantasma, o do inevitável fim provocado por interesses políticos e econômicos. Sobre seu épico, Sombras Marcadas, Kamila Shamsie concedeu uma entrevista ao Caderno 2.

Seu livro Sombras Marcadas é ambientado em vários países. Foi sua decisão escrever um épico sobre o espírito bélico que nunca morre ou o livro tomou essa forma à medida que você escrevia?

Acho que, se tivesse começado com a ideia de que a novela iria atravessar cinco países e contar 50 anos de guerras e violência, provavelmente teria ficado exausta e poderia ter decidido não escrever essa história, mas, felizmente, o jeito que escrevo é pura intuição. Começo com uma simples imagem e sigo por onde ela me conduz. A primeira imagem de Sombras Marcadas é a de uma mulher com pássaros tatuados nas costas, que são suas cicatrizes da bomba de Nagasaki, cidade sobre a qual não sabia nada na época. Mas, à medida que pesquisei e desenvolvi os personagens, comecei a vislumbrar as diferentes direções que a história poderia tomar.

Deve ser desafiador escrever um livro sobre culturas tão diferentes quanto a japonesa, a paquistanesa e a indiana. Que tipo de pesquisa você fez? Viajou por esses países?

De alguma forma, falar da Índia, do Paquistão e dos EUA não foi difícil, pois eram culturas familiares para mim, mas escrever sobre Nagasaki exigiu uma pesquisa extensa antes que pudesse ver os personagens se movimentando diante dos meus olhos. Basicamente, fiz o que todo mundo faz, ou seja, comecei pesquisando no Google. Como seria impossível reconstituir Nagasaki antes da bomba, adotei como referências fotos, livros e mapas amigos. Como o testemunho de muitas das vítimas de Nagasaki está registrado, essa tarefa ficou mais fácil, embora fosse difícil seguir esses depoimentos e estudar as roupas da época, o clima, os tipos de plantas. Levei mais tempo pesquisando para escrever as 30 páginas do livro sobre Nagasaki do que o restante do livro

Que semelhança você identifica entre o episódio da bomba de Nagasaki e o novo terrorismo? Você realmente acredita que uma nova guerra encerraria a história da humanidade, como diz a epígrafe de Ludhianvi no começo do livro?

Não sei se há um "novo terrorismo" - tudo parece uma sequência do que aconteceu antes. Flagrei-me pensando nisso enquanto escrevia o romance, não exatamente sobre o paralelo de momentos históricos como esses, mas sobre como nada acontece fora de um contexto histórico - e as guerras sempre deixam alguma espécie de resíduo que continua a funcionar como um veneno. Então, você atira uma bomba para acabar com uma guerra e o resultado não é um fragmento, mas uma corrida nuclear entre países - a Índia e o Paquistão, no caso do meu livro. Você treina jihadis (soldados fundamentalistas) para lutar contra os soviéticos no Afeganistão e duas décadas mais tarde você vira alvo de uma jihad. Quanto à citação de Ludhianvi, muitas guerras aconteceram desde que ele escreveu esse poema e o mundo não acabou, embora exista uma grande probabilidade de que isso aconteça por causa das armas nucleares.

Sempre que você menciona suas influências, alguns nomes surgem espontaneamente: Michael Ondaatje, Toni Morrison, Italo Calvino. Como esses autores marcaram sua literatura?

Devo admitir que essa lista muda constantemente. Um dia é Morrison, outro é Calvino e no dia seguinte é Rushdie ou Grace Paley. Mas Ondaatje parece ser o nome que menciono com mais frequência. Não chegaria ao ponto de identificar a sua influência naquilo que escrevo, pois poderia parecer pretensioso, mas na última década ele tem sido o escritor a quem mais recorro como inspiração. Na Pele de um Leão e O Paciente Inglês são livros extraordinários - ainda mais quando lidos juntos. A habilidade de Ondaatje de evocar lugares, estações e pessoas numa só frase é excepcional, assim como a de escrever histórias de amor, de amizade, de injustiça, de celebração, tudo ao mesmo tempo sem perder o equilíbrio necessário.

Seu livro lida com um universo que não nos deixa muita esperança. Você anda desiludida com o mundo ou espera que escrever sobre fundamentalistas e guerreiros possa evitar uma tragédia?

Não penso no livro dessa maneira. Ele, de fato, termina num momento de desespero, mas acho importante às vezes não enganar os outros acenando com a ilusão de que as coisas possam ser consertadas. Há muito amor e heroísmo no livro. O casamento de Hiroko com um homem de uma cultura completamente diferente, sua amizade com Elizabeth que continua por décadas, sua habilidade para sobreviver à devastação sem perder a fé na humanidade, tudo isso é importante para mim, assim como as histórias dolorosas do romance. Naturalmente, seria ridículo imaginar que todos no mundo vivem sob as mesmas circunstâncias históricas - os dias que vivemos podem ser terríveis para algumas nações, mas não para todas.

Há sempre uma carga política pesada em seus livros. Você diria que prevalece o espírito de repórter em você?

Isso seria assumir que a política é assunto de repórteres, não de novelistas. Não concordo. Na vida, história e política andam juntas. Se você conta a vida de pessoas, como deixar a política de lado?

Você sempre é finalista de prêmios. O que eles significam para você?

O que há de mais significativo num prêmio é que ele atrai mais leitores para seus livros. A produção é tamanha hoje que corremos o risco de desaparecer.

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