Saem os últimos contos de Primo Levi

A vida tornou-se pesada demais parao escritor italiano Primo Levi (1919-1987) - no ano passado,foram publicadas duas biografias a seu respeito em inglês enenhuma delas afirma com segurança que sua morte veio por acaso,caindo de uma escada, ou se foi provocada por ele mesmo. Químicode formação, sobrevivente de Auschwitz, onde milhões deprisioneiros, judeus como ele, foram assassinados, ele morreudeixando mais de 20 contos dispersos. Organizados depois de suamorte por um de seus mais relevantes críticos, Marco Belpoliti,os textos resultaram no volume O Último Natal de Guerra (160páginas, R$ 28), que a Berlendis & Vertecchia Editores lançourecentemente. São 26 contos, escritos em seus últimos dez anos de vida, em que Levi demonstra seu talento para narrativas breves, alémde desenvoltura ao alternar estilos e temáticas. Muitos dostextos versam sobre o período de prisioneiro dos nazistas, mas,mais que uma retomada de um tema que o atormentou em todos os seusminutos depois de terminada a guerra, trata-se na verdade do reflexo de um momento em que ele buscava se afirmar comoescritor. "Não é fácil definir o tipo de narrador breve que Levirepresenta", escreve Belpoliti no texto de apresentação."Durante sua fase produtiva, ele experimentou diversos tipos decontos, desde o realista até o fantástico, da ficção científicae biológica à crônica, da parábola à novela dramática e à´burla´, passando pelo policial e pela reelaboração declarada.Essa pluralidade de registros narrativos alterna-se por vezes emum mesmo conto." É o que se observa logo no primeiro conto do livro,Jantar em Pé, uma fantasia em que o narrador, representanteda rica burguesia milanesa, se veste de canguru, realizando naprática o incômodo que se sente quando na presença de estranhos.O mesmo se passa com os dois personagens de Foram Feitos paraFicar Juntos, que são habitantes de um mundo bidimensional. As narrativas lembram os textos fantásticos de ItaloCalvino, embora seu tom seja mais melancólico - Primo Leviprometera, em 1963, logo depois de publicar A Trégua, quenão mais escreveria textos testemunhais. A vivência passada nocampo de concentração, porém, era forte demais, criando umamemória "patológica", como afirma em Um ´Giallo´ do Lager, umdos contos de O Último Natal de Guerra: "Com o passar dosanos, essas recordações não empalidecem nem se dissipam, aocontrário, se enriquecem com detalhes que eu acreditavaesquecidos, e que às vezes adquirem sentindo à luz dasrecordações de outras pessoas, de cartas que recebo ou de livrosque leio." Na verdade, são cinco o número de contos dedicados aAuschwitz, provando que a escrita era um eterno ajuste de contascom a vida. Concorrendo em interesse estão as narrativas finais dovolume em que Levi utiliza animais como personagens. Os bichossão uma constante em sua obra, que segue a tradição das fábulasem que se transformam em seres com sentimentos e impulsostípicos dos humanos. Assim, na posição de jornalista, o escritorrecolhe declarações de uma formiga rainha, uma toupeira macho,uma bactéria intestinal, uma gaivota, uma girafa e uma aranha. "O olhar de Levi para o mundo animal é o de um binóculode trás para frente, apontado para o mundo humano", observaBelpoliti. "Através das peculiaridades, os aspectos biológicose os comportamentos dos animais entrevistados, o escritorconsegue descrever nosso mundo pelo contraste: hábitos,comportamentos, tabus, lugares-comuns. Faz antropologia enquantose dedica à observação do mundo natural."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.