Sacrifício de homens

'Alemão' é o maior lançamento do diretor Belmonte; são mais de 300 salas exibindo o vigoroso faroeste urbano

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2014 | 02h11

Onde você estava quando ocorreu a ocupação do Complexo do Alemão? A pergunta foi feita à equipe do filme, durante a coletiva de Alemão, no começo da semana, no Rio. O novo filme de José Eduardo Belmonte estreou - na quinta - em mais de 300 salas. É o maior lançamento da carreira do diretor, e a expectativa de público é tanta que o ator e coprodutor Cauã Reymond cometeu uma indiscrição - disse que, dependendo dos números, Alemão já chega ao circuito com a promessa de um Alemão 2.

Mas onde estavam as pessoas? A maioria, exceto dois ou três que moravam no complexo e estavam no meio do agito, seguiram tudo pela TV. A imagem que ficou foi a dos bandidos correndo feito ratos para o mato. Belmonte estava em Brasília, preparando-se para ir ao Rio para um compromisso profissional, que foi cancelado. Mal sabia ele que, anos depois, estaria reconstituindo tudo aquilo.

 

 

Bandidos feito ratos? Cauã Reymond levantou uma questão semântica na coletiva - "Playboy (o personagem dele) não é bandido, é criminoso." Alemão, o filme, é vigoroso, poderoso. E põe na tela a nova cara do policial brasileiro - o gênero, não o tira -, pós-Tropa de Elite 1 e 2. A vontade de todos - diretor, produtor, elenco - é que a urgência com que o filme foi feito passe para o espectador. Belmonte centra seu relato nas figuras de cinco policiais que foram infiltrados no Alemão para monitorar, de dentro, o que seria a invasão. Sua identidade é descoberta e eles ficam entrincheirados na pizzaria que servia de fachada para o grupo.

Brigam entre si - se foram descobertos, é porque há um traidor entre eles. Mas o filme não se constrói só na perspectiva dos cinco, ou seis - uma mulher vem juntar-se ao grupo. Existe também o traficante, Playboy, que controla o morro, e o policial que, lá fora, preparou a operação, mas ela escapou a seu controle e foi assumida pela cúpula da polícia e do Exército. Ele não se preocupa - angustia - só porque seus homens correm risco e poderão morrer. Há um elo muito mais forte com um deles, que ultrapassa o comprometimento policial. E não adianta esse policial, Antônio Fagundes, passar o tempo a dizer que não existe heroísmo na polícia.

Alemão nasceu de uma encomenda feita pelo produtor Rodrigo Teixeira ao diretor Belmonte. Guerrilheiro do cinema, o cineasta levou a urgência de O Mundo em Perigo, seu longa de 2007, para um contexto maior (em termos). O filme foi feito no rigor, em 18 dias, e com orçamento apertado. Ao refletir sobre o material, e o tipo de filme que queria fazer, Belmonte fez uma viagem imaginária no tempo, à sua infância, quando o pai o levava para ver westerns. Lembrou-se de Onde Começa o Inferno (Rio Bravo), de Howard Hawks, de 1959, em que John Wayne reúne grupo heterogêneo para impedir que pistoleiros resgatem colegas presos em sua cadeia. John Carpenter, o mestre de horror, retomou essa história - ou outra similar - como thriller e fez Trovão nas Ruas, Assalto ao 13.º DP.

Você não precisa ter visto esses filmes para perceber que Alemão é um faroeste urbano. Seu tema é o sacrifício, mas nessa história de traição e heroísmo - pois há heroísmo, não porque o filme queira endeusar a instituição, mas os homens - há espaço para os sentimentos. Alemão também é um grande filme de amor. Entre pai e filho, entre homens e mulheres. O policial que ama a irmã do lugar-tenente do criminoso entrega a melhor interpretação. O criminoso, Playboy, ama a mulher que foi parar na ratoeira. Não é frequente, mas um mérito de Belmonte, que o cinema brasileiro apresente hui clos tão cerrado.

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