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Sacos ilustres

Meu tetravô botou dinheiro nisso: uma cidade, Isabelópolis, em louvor da Princesa Isabel

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

28 Março 2017 | 02h00

Ainda bem que eu não andava em busca de heróis ou santos quando me meti a escarafunchar raízes de família. Em matéria de frustração retroativa, já me bastava ser neto de alguém que morreu presidente de banco e não ter chegado a mim, por essa via, um mísero vintém. 

Estivesse eu à caça de feitos notáveis e a mais sumária arqueologia genealógica teria me presenteado com decepções obesas - e mesmo com um bocado de vergonha, no caso de Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, o barão de Paty do Alferes, potentado que ao morrer, século e meio atrás, reinava sobre 7 fazendas e mais de mil escravos na região fluminense de Vassouras, e que, num desfecho nada glorioso, veio a ser meu tetravô.

 

Não é impossível que você já tenha ouvido falar nesse figurão, objeto que tem sido das lentes e bisturis de estudiosos cada vez mais numerosos. Talvez sua lembrança tivesse se perdido lá atrás, como a de tantos outros poderosos cujos feitos, glórias e vilanias o tempo dissolve, não fosse ele autor de um livro de título desproporcional a suas magras 40 páginas, Memória sobre a Fundação de Uma Fazenda da Província do Rio de Janeiro, sua Administração e Épocas em Que se Devem Fazer as Plantações, Suas Colheitas, etc. 

Ao publicá-lo, em 1847, não tinha Francisco a mais remota pretensão de com ele atravessar os tempos. Pensou apenas em pôr no papel um manual de instruções que permitisse a seu primogênito, Luiz, doutor recém-chegado de universidade europeia, tornar-se fazendeiro a partir do zero, sem saber nem sequer plantar batata ou pentear macaco. Não existindo na época nada do gênero, o livrinho chamou a atenção de outros donos de terras, e em 1863, já falecido o autor, ganhou nova edição, revista, ampliada por Luiz, que teve a boa ideia de encurtar o título. 

Memória sobre a Fundação de uma Fazenda da Província do Rio de Janeiro não parou de engordar: a 3.ª edição, de 1878, saiu com 377 páginas. Tenho dela um exemplar, resgatado mais de 100 anos depois numa pilha de cacarecos no que fora o escritório da antiga fazenda de meu avô Hugo, o supracitado banqueiro (além de médico, político e muita coisa mais), nos arredores de Belo Horizonte. Em 1985, o Senado e a Fundação Casa de Rui Barbosa tiraram mais uma edição, feiosa, mas capaz de atear interesse em estudiosos.

Até achá-la por acaso, eu não sabia da existência dessa obra, que imediatamente atravessei com voracidade comparável à dos cupins que já começavam a degustar a encadernação. Daquele tetravô, tinha ouvido falar, na família, como sendo um nobre que, embora dono de mil escravos, era contra o trabalho escravo.

Como assim?, me perguntava. Não só eu: na sua fase comunista, meu primo Carlos Lacerda, ele mesmo, Carlos Frederico Werneck de Lacerda, não foi nessa conversa, e aos 20 anos, sob pseudônimo (“Marcos”), narrou num folheto o massacre promovido em 1838 por nosso lustroso antepassado, que era também coronel da Guarda Nacional, para esmagar uma revolta de escravos e enforcar seu líder, o quilombola Manuel Congo.

Em seu manual, Francisco fala da escravatura como sendo “o gérmen roedor do Império do Brasil”. Na segunda edição, o herdeiro Luiz trocou “gérmen” por “cancro”, o que não melhora as coisas. Mas não queriam, pai e filho, iludir ninguém: o barão simplesmente avaliava que não era um bom negócio aquela mão de obra, pois escravo custava caro e tinha vida breve. 

“Não está em harmonia o preço do escravo com o produto que dele se tira”, deixou claro o vovô barão. Se achava que as senzalas deviam ser feitas “no lugar mais sadio e enxuto da fazenda”, era por acreditar que “a prosperidade do fazendeiro” dependia “da conservação da escravatura”. Pela mesma razão, aconselhava proibir “severamente a embriaguez”, devendo o pinguço ser posto no tronco “até lhe passar a bebedeira”, antes de castigá-lo “com 20 até 50 açoites”. Criticava os fazendeiros que deixavam acumular penas que, quando finalmente aplicadas, podiam matar o delinquente. 

Pragmático, meu tetravô - que o historiador Eduardo Silva, em luminoso prefácio à edição de 1985, vê como “representante típico da oligarquia rural fluminense” - era também pressuroso em puxar sacos ilustres, de fêmeas, inclusive, na Corte imperial. Em 1855, dispôs-se a gastar até 15 contos de réis para viabilizar seu título de “barão com grandeza”. Não sei se precisou meter a mão no bolso.

 

Em 1855, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck pingou 4 contos de réis, um dinheirão, numa vaquinha destinada a erigir uma estátua equestre de Pedro I no Rio de Janeiro. Ainda foi pouco diante do que investiu no seu maior delírio, a construção de uma cidade em homenagem à princesa Isabel. Se Petrópolis e Teresópolis tinham sido batizadas em louvor de Pedro II e da imperatriz Teresa Cristina, argumentava o barão, por que não uma Isabelópolis? 

Começou por construir uma capela, na qual enterrou 60 mil contos de réis. Para a inauguração, gastou um despropósito em doces finos que mandou buscar no Rio. Mas nem aquele embrião de cidade prosperou: o que hoje resta da capela são ruínas na reserva biológica do Tinguá, no município de Miguel Pereira. Boas razões tinha o barão para choramingar: “Dinheiro na minha mão é manteiga no focinho de cão”, costumava ele dizer, ao mesmo tempo em que abria as burras - sem imaginar que descendentes seus nem isso teriam para passar em pães que o Diabo iria amassar.

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