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Sacks e o Rei Zulu

Para não me expor à chacota, não listarei os grudes musicais de maior sucesso no meu cérebro

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

05 Setembro 2015 | 03h00

Polímata, ardoroso humanista, permanente facho de luz sobre questões fundamentais do corpo e da mente humana, exímio vulgarizador das interconectividades da ciência com a arte, da fisiologia com a psicologia, da mágica da imaginação com os prodígios da natureza – o que mais poderia eu dizer além de tudo o que já foi dito sobre o neurologista Oliver Sacks, desde sua morte domingo passado? 

Por ser um semianalfabeto científico, sinto-me liberado de compartilhar algumas críticas que em vida lhe foram feitas, parte delas possivelmente alimentadas pela inveja de cientistas sem a sua fama e empatia. De todo modo, ele não foi uma unanimidade entre seus pares. Chamaram-no de “Ripley da neurologia” (referência a Robert Ripley, criador da série Acredite Se Quiser) e o acusaram de haver “confundido seus pacientes com uma carreira literária” (referência a um de seus relatos mais famosos: O Homem que Confundiu Sua Mulher Com um Chapéu). 

Richard Powers escreveu o romance Ecos da Mente inspirado nele. Qualquer semelhança entre Sacks e o personagem Gerald Weber, um neurologista e escritor amargurado pela suspeita de explorar os deficientes físicos aos seus cuidados em artigos de grande popularidade, não é mera coincidência. Maldade de Powers: Sacks jamais gigolou seus pacientes; ao contrário, só os ajudou, e muito, e os estimulou, muitíssimo. 

Mas vamos ao que interessa. A bem dizer, ao que mais me interessou na obra de Sacks, suas pesquisas com a música. A neurociência da música praticamente inexistia quando, nos anos 1980, o melômano Sacks cativou-se do assunto e começou a cuidar de pessoas inopinadamente despertadas para a música ou por ela aliviadas, quando não curadas, de doenças e algumas síndromes bizarras. Lidou com um cirurgião que, depois de atingido por um raio, fissurou em música, aprendeu sozinho a tocar piano, virou compositor e regente; com um amnésico incapaz de lembrar ou antecipar eventos, mas de prodigiosa memória musical; com esquizofrênicos beneficiados pelo potencial terapêutico de sinfonias e canções. 

Nosso sistema nervoso, assim como o auditivo, é primorosamente sintonizado com a música. A musicofilia é um dado da natureza, dado que somos providos do equipamento neural para apreciar sons e melodias, capacidade que pode ser desenvolvida ou moldada pela cultura em que vivemos, pelas circunstâncias da vida e pelos talentos ou deficiências que temos como indivíduos, explica Sacks, com clareza e elegância, em seu livro sobre o tema, aqui editado como Alucinações Musicais (Relatos Sobre a Música e o Cérebro). Se nascemos “suscetíveis à música”, essa arte que nos distrai, acalma, anima, consola, emociona e até pode tornar as crianças mais inteligentes (desde que ouçam bastante Mozart), nada mais natural que sejamos também suscetíveis a diversas formas de musicoterapia. 

O próprio Sacks já se beneficiou dessa suscetibilidade. Conforme contou pela primeira vez em Com Uma Perna Só, ferido no joelho ao despinguelar-se de uma montanha norueguesa, só se recuperou do susto e parou de sentir dores depois de ouvir (ou cantarolar) repetidas vezes o Concerto Para Violino, de Mendelssohn. 

A música, como sabemos, não é só enlevo e bilu-bilu. Além de ser a única arte que, segundo Millôr, nos ataca pelas costas, possui agentes cognitivamente infecciosos, que se infiltram e instalam no cérebro por tempo indeterminado e com variável frequência. Sabe aquele fragmento musical que de repente começa a nos martelar a cabeça e se repete incessantemente por horas, às vezes dias, a fio? Sim, aquele grude musical que quase nos leva à loucura e ao qual nenhum ser humano parece imune. Sacks o aborda em seu livro. Foi graças a ele, aliás, que aprendi seu nome “científico” em inglês: “earworm” (verme de ouvido). 

Derivado do alemão “Ohrwurm”, melhor lhe assentaria o correlato “brainworm”, pois é no cérebro que ele atua. Também já o vi referido como Imi (imagem musical involuntária), “comichão cognitiva” e, de forma pitoresca, por franceses (“musique entêtante”, música teimosa) e italianos (“canzone tormentose”). 

A repetição interminável e o fato de que a música em questão pode ser banal ou sem graça, nos desagradar ou até nos parecer abominável configuram o que Sacks define como “processo coercivo”, já que ela entrou e subverteu uma parte do cérebro, forçando-o a disparar de maneira repetitiva e autônoma. Como um prurido acústico, digamos assim. 

Presumo que possamos enquadrar nessa categoria a fictícia Sonata de Venteuil, espécie de madeleine sonora inventada por Proust em sua Recherche. Certamente era um verme de ouvido a canção de Les Misérables que George Constanza não conseguia tirar da cabeça, na segunda temporada de Seinfeld. 

Apurou-se que os “vermes de ouvido” atacam mais os músicos e quem sofre de transtorno obsessivo-compulsivo e azucrinam por mais tempo as mulheres. Jean Harris passou 33 anos com a canção Put the Blame on Mame, cantada por Rita Hayworth em Gilda, rodando sem parar na cabeça. Nem quando conversava tinha descanso. Ensandecida, matou o marido. 

Coincidência ou não, foi num conto de Edgar Allan Poe narrado por um assassino, O Demônio da Perversidade (1845), que encontrei a primeira referência literária à comichão musical. Trinta anos mais tarde, numa curta ficção originalmente intitulada A Literary Nightmare, Mark Twain inventaria um virótico estorvo cognitivo, derivado de um jingle, com o qual o narrador contaminava o cérebro de um pastor e este, os de seus alunos. Em 1943, no conto Nothing But Gingerbread Left, Henry Kuttner antecipou a derrota do exército nazista não pela força das armas inimigas mas pela desconcentração provocada por um insidioso “earworm” inoculado pelos aliados.

Para não me expor à chacota pública, não listarei os grudes musicais de maior sucesso no meu cérebro. Nos dias mais bonançosos, instala-se (eis o verbo certo) um Tom Jobim, um Sinatra, um Jacob do Bandolim, mas até ou sobretudo essas exceções me atormentam porque receio passar a detestá-las após tantas, involuntárias e ininterruptas audições. 

Como livrar-se do verme? Receita é o que não falta. Ao menos para reduzir a recorrência, um estudo do British Journal of Psychology recomendou jogar sudoku e ler ficção. Mascar chiclete, dizem, ajuda. Prefiro o mano a mano musical: música vs. música. Há provas da eficácia de Raindrops Keepin’ On My Head como “apagador musical”. Nunca experimentei. 

Ruy Castro me indicou como infalível a marchinha carnavalesca Rei Zulu, de Nássara e Antônio Almeida. Testei-a: “O Rei Zulu/o Rei Zulu/Não paga casa/nem comida e anda nu...”. E passei uma tarde inteira sem poder tirá-la dos ouvidos. Ou melhor, do cérebro.

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