Sacerdote-artista faz 1ª mostra individual em SP

Presença sutil mas incontornável, Mestre Didi vem tendo uma participação constante nos eventos que se dedicam a compreender melhor a herança visual brasileira. Bem representado na Mostra do Redescobrimento, expondo em dois dos 14 núcleos (Arte Afro-brasileira e Negro de Corpo e Alma), o sacerdote-artista inaugura amanhã à noite sua primeira exposição comercial em São Paulo, depois de muitas décadas.Os 25 trabalhos reunidos na Galeria São Paulo são uma espécie de resumo do fascinante processo criativo daquele que é considerado um dos maiores artistas afro-brasileiros do País. Iniciado no culto aos ancestrais Egun aos 8 anos de idade, o agora octogenário Mestre Didi dedica-se aos objetos rituais desde a infância e como sacerdote supremo é responsável pela execução e sacralização de todos os emblemas rituais utilizados no culto do orixá Obaluaê.É a força arquetípica e simbólica das tradições africanas que constituem a base, as raízes das delicadas e potentes esculturas que Didi desenha no espaço. "Ele atualiza a visão teológica, cósmica e mítica de seus antepassados", resume Juana Elbein dos Santos, parceira de Didi há 34 anos. Além de ser casada com o artista há 32 anos, a antropóloga tornou-se sua porta-voz e companheira de rota, já que Didi não pode conceder entrevistas para não romper com seus votos sacerdotais.Contemporâneo - Profunda conhecedora da obra do marido e da cultura nagô (apesar de não ser sacerdotisa), Juana procura mostrar que Mestre Didi é, na verdade, um "sacerdote-artista". E faz questão de recordar que aqueles que esperam ver objetos de culto nas exposições que o artista realiza no Brasil e no exterior se enganam. "A arte dele não é ritual, é uma expressão plástica contemporânea, que se alimenta da tradição mítica", afirma.As formas e os materiais das esculturas evidenciam a força da tradição em sua obra. Nenhum elemento é utilizado gratuitamente e as combinações entre os diferentes materiais acabam criando um fascinante e misterioso leque de significados, que exigem uma certa iniciação para ser decifrados. Na verdade, trata-se de materiais de uso corrente, como a palha, os búzios ou o couro, mas que associados criam verdadeiros microuniversos. "A palha da costa, por exemplo, indica relação com a ancestralidade", explica Juana. Já o branco pode indicar a vida, a morte ou o leite.Um dos elementos constantes na obra de Mestre Didi é a serpente, animal cultuado em inúmeras culturas. No caso da tradição nagô, ela possui uma relação com a idéia de vida e morte, de renascimento, que por sua vez está intimamente ligada ao sacerdócio de Mestre Didi. "Nessa cultura ela assemelha-se ao arco-íris; como ele emana da terra, atravessa o universo e volta a ela; faz o percurso do nascimento", diz Juana. Isso explica o fato de as serpentes trazerem sempre todas as cores, "representando toda a multiplicidade de formas humanas que existe na Terra".Deuses e homens - Os títulos dados pelo artista - originamente em iorubá - contém pistas para a compreensão desse potente universo simbólico e são como poesias, anunciando sua força com significados como Poderosa Patrona da Floresta com Magnífico Herdeiro (Odé Olorú Ninu Iya Egan Agbara) ou As Nove Lanças do Mistério (Esin Mesan Awo).Mas até quem desconhece a riqueza cultural contida na obra de Mestre Didi é capaz de se encantar com a leveza e riqueza das formas que dá à palha, com a rica associação de cores e materiais com que recria uma leitura absolutamente pessoal e ao mesmo tempo universal da natureza. Como bem resumiu Emanoel Araújo em texto publicado pelo jornal O Estado de São .Paulo em 1997, sua arte é devotada "a unir os deuses e os homens".Mestre Didi - De segunda a sexta, das 10 às 20 horas; sábado, das 10 às 19 horas. Galeria São Paulo. Rua Estados Unidos, 1.456, tel. 852-8855. Até 21/6.

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