Sabino comemora 80 sem marcar encontro

Aos amigos, o escritor Fernando Sabino disse que passaria o domingo em Saquarema, praia do litoral fluminense. Prudente, prefere desfrutar a tranqüilidade do mar no dia em que completa 80 anos. Não quer homenagens ou comemorações. A única lembrança da data ficará por conta de um anúncio de meia página em um jornal carioca, pago pela Record, editora que o publica desde 1975, com 31 títulos em catálogo. Os mais próximos, porém, acreditam que Sabino ficará em seu apartamento, no limiar de Ipanema, onde, nos últimos tempos, cultiva uma existência pacata. Um dos principais escritores brasileiros vivos, ele prefere conviver com as lembranças em silêncio, rodeado apenas de amigos e familiares.Não se trata, porém, de um homem recluso - só não quer mais notoriedade. Aos 80, Fernando Sabino ainda exibe uma vitalidade invejável para exercer diversas atividades. Em seu escritório, cuida diariamente da organização de seus textos, que resulta, por exemplo, nos volumes de correspondência: já foram publicadas as cartas que trocou com Clarice Lispector, Mário de Andrade e com os amigos com quem formou o grupo Quatro Mineiros do Apocalipse: Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos.Apesar da presença do computador, Sabino prefere a máquina de escrever. A modernidade, portanto, é utilizada pela secretária, Fabiana, e principalmente pelo filho Pedro, a quem caberá o cuidado de sua obra "para a posteridade", como gosta de brincar - a pedido do filho, ele evita falar em morte. O escritor já decidiu que nenhum inédito será publicado postumamente, permanecendo como relíquia de família. Também os livros deverão estar constantemente em catálogo. O fôlego, porém, não terminou - Humberto Werneck de Castro, escritor e amigo, comentou, em uma entrevista, que Sabino escreve uma nova história. "E com o mesmo personagem de O Encontro Marcado."Autor de uma obra que figura entre as mais queridas do público, Sabino tem também o respeito dos colegas. Seus livros sempre figuraram na lista de best-sellers, inspirados nas diversas fases da vida: a juventude em Minas, as viagens para outros países, a aventura ao lado de Rubem Braga como editor da Sabiá, a amizade com outros escritores. Em O Tabuleiro de Damas, Sabino relembra momentos saborosos, como uma resposta atravessada que recebeu de Fidel Castro, durante uma entrevista coletiva, e uma agressão por artigo recebida de Pablo Neruda. Os dois casos foram provocados por um mal-entendido, que o escritor conta com fina ironia.Uma das mágoas na carreira aconteceu com o livro Zélia, Uma Paixão, publicado em 1991, sobre a ministra da Economia de Fernando Collor de Mello. A má recepção obrigou-o a ficar em uma zona de silêncio, que vem sendo quebrado com a divulgação das cartas que trocou com amigos, na expectativa de que, aos 80 anos, uma nova fase da vida se inicie. Afinal, como escreveu em O Tabuleiro de Damas, aos 10 anos ele tomou uma decisão que, em geral, se toma aos 20: optou pela literatura. Aos 20, assumiu a responsabilidade dos 30: casou e foi viver longe dos pais e amigos. Aos 30 enfrentou a crise dos 40, quando a vida recomeça. Aos 40, nova mudança, para outra cidade. Com 50, fixou-se no Rio. Para Sabino, a vida é um eterno renascer.

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