Saberes mundanos

NOVA JERSEY - Quando eu era um menino judeu, tinha inveja de meus amigos católicos. Minha família e eu frequentávamos o que era conhecido como uma sinagoga reformista, o que significava que o serviço era em grande parte desprovido de segredos e mistério. A missa católica, por sua vez, era repleta de segredos e mistérios.

Lee Seigel, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 02h12

Naquela época, a missa ainda era oficiada em latim, e quando um amigo católico ou algum outro me convidava para uma missa ou comunhão, eu ficava fora de mim. Os ritmos belos e encantatórios do idioma arcaico, o cheiro de incenso, os cantos, o vinho e as velas e hóstias - tudo tornava presente e real o mundo invisível, espiritual, que eu tão ardentemente esperava que existisse como uma alternativa melhor àquele que habitava mundanamente.

Além disso, parecia existir uma família alternativa cujos membros jamais se infernizavam, jamais gritavam, e que jamais o abandonariam ou morreriam: Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto. Sicut erat in principio, et nunc, et sempre, et in saecula saecolorum. Amen.

E os tabus - oh, os tabus! Eles pareciam chegar ao cerne de nossa experiência humana, a sexualidade, que era, aliás, uma experiência humana que me torturava e intrigava. Como era libertador saber que a intimidade sexual que eu tanto almejava e não poderia atingir não era realmente, por lei divina, atingível por alguém com menos de 100 anos. Ao mesmo tempo, sua proibição parecia justificar meu interesse constante por ela. O fato de uma instituição sagrada mobilizar todas as suas forças contra o sexo elevava o pensar incessante sobre sexo de neurose a uma digna obsessão. Não era de admirar, eu pensava, que os pais de meus amigos católicos nunca se divorciassem. Envolver-se noite após noite em prazeres satânicos os mantinha unidos. Nunca me ocorreu que eles não estavam autorizados a se divorciar.

Mesmo quando fiquei mais velho e me deparei com a amarga decepção de amigos católicos cuja fé havia caducado, mantive minha velha inveja pelo fascínio de sua religião. Estava começando a frequentar círculos intelectuais em que o desprezo por qualquer tipo de fé religiosa era costumeiro - uma espécie de atestado de seriedade. No entanto, em vez de adotar posturas voltairianas similares, comecei a publicar numa revista católica liberal chamada Commonweal. Cheguei a namorar durante algum tempo a ideia de me converter, mas me lembrei de meus amigos de meninice e de como seu catolicismo estava intensamente colado às suas raízes étnicas. Entre os católicos italianos, e os católicos irlandeses, e os católicos poloneses existem diferenças culturais, moldadas e enrijecidas por idiossincrasias familiares, nas quais eu não poderia jamais me encaixar, que dirá compreender.

Era atraído, sobretudo, pelos jesuítas por sua sutileza intelectual e ceticismo. Pareciam próximos da tradição talmúdica em que eu fora - em grau leve - educado. Vivendo por um tempo em Chicago durante a adolescência, fiz amizade com um rapaz chamado Francis Byrne, que era educado por jesuítas. Bondoso e compassivo, ele me seduzia com histórias do chefe dos jesuítas, um homem conhecido por sua caridade e amor, que guiava um Cadillac, vestia ternos caros feitos sob medida e tinha uma amante. Isso não me pareceu hipocrisia, antes um modus vivendi permitido por uma religião ancestral, usada nos modos do mundo e nos caminhos do coração humano. Essa fé, assim me pareceu, tornava possível aplacar e neutralizar o lado animal da natureza humana, de modo que a centelha divina em cada ser humano pudesse persistir e florescer.

Se posso falar como um outsider religioso, ainda tenho minha fé naquela fé. Para cada revelação aterradora de pedofilia, misoginia e cumplicidade com poderes mundanos desprezíveis, conheço incontáveis histórias de católicos que deram suas vidas para ajudar pessoas em tempos políticos sombrios, ou passaram - e consumiram - suas vidas ajudando pessoas a sobreviver em meio a uma pobreza e injustiça aviltantes. Eu não suportava ouvir o jornalista Christopher Hitchens discursar sobre a perversão da fé religiosa. Não me passava pela cabeça como alguém podia levar a sério o argumento gasto de Hitchens de que a religião era o ópio das massas quando Hitchens, como ele próprio admitiu, viveu bêbado todos dias e noites de sua vida.

Assistindo à eleição do novo papa, não pude deixar de pensar que, de algum modo, o saber mundano que a Igreja Católica um dia conheceu e praticou - para cada papa venal, houve um papa magnânimo, e, às vezes, um que incorporava as duas qualidades - havia sido abandonado nos tempos modernos. Se ao menos a Igreja pudesse ser tão compreensiva com a sexualidade humana como o professor jesuíta de Francis Byrne e seus lenientes superiores. Sem o celibato e as patologias que ele amiúde origina, sem as barreiras institucionais erigidas para mulheres, sem a tolerância aos abusos de poder coexistindo com misericórdia para os impotentes, a mensagem de amor e esperança do catolicismo - única na história humana - seria revigorada e disseminada livremente. (Evidentemente, está ficando cada vez mais difícil dar a outra face quando se está on-line o dia todo e nem se consegue encontrar a própria face). Sem a pátina institucional empanando o espírito católico, modernidade e trindade poderiam se ajustar como as peças perdidas de um quebra-cabeça.

Meus amigos católicos me dizem que estão divididos entre a esperança inspirada pela escolha do nome do novo papa, e por seu background jesuítico e latino-americano, e a desesperança por seu conservadorismo e por sua aceitação passiva de autoridades iníquas no passado. A despeito de tudo, eu ainda invejo meus amigos católicos. Eles sabem exatamente o que está em jogo, e pelo que estão lutando. Isso é uma bênção.

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