Sabedoria de um elenco maduro

Dirigido por Jorge Vermelho, Balé Teatro Castro Alves se conecta à comunidade

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2011 | 00h00

Quem desejava conhecer o perfil que Jorge Vermelho vem desenhando para o Balé Teatro Castro Alves (BTCA), que não dançava em São Paulo desde 2007, foi atendido pelas cinco apresentações que a companhia oficial do Estado da Bahia realizou no Sesc Vila Mariana, mostrando as três obras criadas na sua gestão.

Ator, diretor e curador que se projetou no Festival Internacional de São José do Rio Preto, ele está há pouco mais de um ano na direção do BTCA, enfrentando uma circunstância específica do contexto das companhias oficiais de dança no Brasil: lidar com bailarinos-funcionários públicos estáveis que passaram a vida em ambiente no qual se pratica um entendimento de dança que não se adequa ao seu envelhecimento no mesmo cargo.

O sensato caminho escolhido por Jorge Vermelho foi o de procurar valorizar o que poderia ser tratado como impedimento, buscando a produção de obras que explorem a sabedoria de um elenco maduro, uma vez que os bailarinos têm entre 35 e 60 anos.

Para isso, convidou três coreógrafos de distintas linhagens: Renata Melo, com quem realizou 1POR1PRAUM; Henrique Rodovalho, da Quasar, que assinou A Quem Possa Interessar; e Ismael Ivo, que produziu À Flor da Pele. Embora muito pertinente, a sua proposta enfrenta uma dificuldade: ela depende de uma cultura de dança diferente da praticada nesse tipo de companhia, voltada a montar coreografias para corpos jovens.

No caso da obra assinada por Henrique Rodovalho, A Quem Possa Interessar, que estreou no Teatro Castro Alves, em Salvador, em agosto, esse desajuste se evidencia no tipo de material escolhido para apoiar a sua criação. Em uma solução inadequada, produz algo que lembra uma "facilitação" do movimento que vem inventando ao longo do tempo para "ajustá-lo" a esse elenco. E junta às suas frases, algumas outras, mais específicas do repertório que está naqueles bailarinos. Todas elas operam como citações nostálgicas e poderiam ser referências potentes. A dança permanece confinada ao triste papel de uma mímica do verbal, seja dos depoimentos ou das letras que Badi Assad canta na trilha proposta por Rodovalho, feita para embalar a plateia.

Cada bailarino se apresenta por intermédio de um depoimento gravado, no qual também confidencia os seus prazeres. Por conta dos hábitos coreográficos longamente consolidados na companhia, a dança é trabalhada como uma legenda para o que falam, esmagando a possível complexidade que poderia brotar dessa escolha dramatúrgica.

A principal questão, todavia, parece estar no tratamento coreográfico adotado por Rodovalho. Se a proposta era a de testar como bailarinos mais velhos e sem familiaridade com a sua movimentação dão conta dela, que pede o vigor de corpos mais jovens, o equívoco foi desconhecer o tanto de fazeres distintos que cabem dentro daquilo que, em dança, se nomeia de habilidade. Comprimir o "fazer bem-feito" dentro do que "ainda" é possível mostrar sem expor as suas "deficiências" não explora a possibilidade de elaborar esse possível do ponto de vista do artífice. Como se sabe, não são deficiências e sim qualidades de outra natureza, que merecem ser exploradas. Mas isso só acontece com mais tempo de convívio entre coreógrafo e elenco.

Não seria necessário facilitar nada para esses intérpretes. Bastaria não tentar colonizar a sua movimentação com um material aproximado ao que burila tão bem em seus bailarinos, e com o qual construiu uma assinatura própria da maior qualidade. Por conta do tipo de compreensão de dança adotado, os curtos solos ficaram reduzidos a manifestações de que ainda dão conta de dançar, o que é pouco para artistas como aqueles.

A solução cenográfica que divide a cena entre o espaço de mostrar o movimento e o de se mostrar sem movimento não colabora com a necessária mudança de lugar das paredes que asseguram que somente os passos já conhecidos de dança são dança. E o figurino de Márcia Ganem também não ajuda a desmanchar os preconceitos, pois cobre e desnuda os corpos de acordo com um modelo habitual de aceitação de um corpo em cena. Teria sido precioso se também o figurino tivesse proposto um outro caminho para a tirania de um modelo único de corpo para a dança.

Comemoração. O BTCA em breve comemorará seus 30 anos. Possui um corpo estável com 36 bailarinos, dos quais 26 vieram para a temporada paulistana, e reúne mais de 50 montagens em seu repertório. Vale destacar, nesse longo percurso, a atual direção de Jorge Vermelho, que lida de forma ampliada com os processos de criação das obras que encomenda, aumentando a conectividade entre a cia. e a comunidade. Durante a montagem de A Quem Possa Interessar, foi lançado o projeto Observatório de Criação, que possibilitou a outros bailarinos e coreógrafos acompanharem o cotidiano do BTCA em aulas e ensaios abertos. É a segunda obra da trilogia dedicada a buscar um novo perfil artístico para a cia. O mais importante, agora, é se manter nessa direção.

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