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Sabedoria de poeta

Mulher que se banha às 9 da manhã, dizia Ovalle, às 4 da tarde está no ponto para o amor

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S. Paulo

25 de agosto de 2015 | 02h00

O camarada sai de Lisboa para comprar noz moscada na Índia – e, quando vê, descobre um Brasil.

Foi o que me aconteceu a partir do momento em que encasquetei contar a vida do poeta e músico Jayme Ovalle, empreitada insana de que resultaria, 17 anos depois, um livro de quase 400 páginas, O Santo Sujo. Não conhecia do meu personagem mais que uns fiapos de relatos biográficos, redundantes e vagamente inverossímeis, e meia dúzia de versos, quase todos fracotes, traduzidos do inglês – idioma que o autor jamais chegou a dominar, embora tenha passado 8 anos em Londres e Nova York. Numa cidade e noutra, encarregava suas namoradas de ancorar no papel as nuvens poéticas que nem mesmo em português ele dava conta de capturar.

Não me preocupei: havia quem jurasse ter visto malas, baús repletos de poemas no quarto do hotel Century, na rua 46, onde Ovalle fez sua toca em Nova York. 

Para abreviar a história: não tardei a constatar que não havia mala poética alguma, muito menos baú, sequer mochila, nos guardados que meu personagem deixou ao morrer, no Rio de Janeiro, vai fazer agora – dia 9 de setembro – 60 anos. Quando perguntei pela literal bagagem literária do finado, sua viúva, a escritora americana Virginia Peckham, deu uma gargalhada. 

Estávamos em sua casa em Los Gatos, na Califórnia, a mesma, aliás, onde Jack London escreveu The Call of the Wild, em torno da qual, como que saídos de uma fantasia de Walt Disney, saltitavam miríades de esquilos. Virginia gargalhou, serviu-me seu café aguado e foi buscar uma folha de papel amarfanhada e recoberta de ríspidos garranchos. Mostrou-me também os três tomos de uma idosa Bíblia em português de Portugal em cujas margens o falecido, cristão singularíssimo que não raro batia boca com Deus, esbofeteando-se no rosto em lágrimas se perdia a parada, registrara impressões de leitura sem reverência alguma, como se anotasse nas páginas de mero romance, concordando ou divergindo do criador. 

Você acha, desafiou Virginia, que alguém com esta letra conseguiria escrever o que quer que fosse? Solicitada a pescar e elaborar as tais nuvens poéticas, tudo o que pôde, sob as bênçãos do marido, foi processar o essencial num longo poema dela mesma, o ainda inédito Brazil Genesis, do qual tenho cópia. “Este é o poema que Jayme Ovalle teria escrito, se fosse capaz de escrever”, esclarece nota na abertura do livro.

Não sei como não pedi licença para ir lá dentro me suicidar, ao ver que me metera na enrascada de biografar um poeta sem obra poética. 

No instante seguinte, porém, percebi que era melhor não haver baú algum do que me deparar com um baú pejado de versos anêmicos – e, a partir de então, o desafio inicial, longe de murchar, tornou-se ainda mais estimulante: contar a vida de um poeta que, embora encharcado de poesia, era incapaz de registrá-la, mas que, ainda assim, teve o poder de influenciar gente graúda – a começar por Manuel Bandeira, seu maior amigo, autor dos versos da mais célebre canção de Jayme Ovalle, Azulão, miniatura de apenas 16 compassos que ressoa em todo o mundo. Ou Fernando Sabino, que nele se inspirou para criar o personagem Germano de O Encontro Marcado. Ou, ainda, Vinicius de Moraes, que falava de Ovalle como sendo a pessoa mais extraordinária de quantas conheceu. Foi com Ovalle, atesta Otto Lara Resende, que o “poetinha” incorporou o carinho dos diminutivos. O mesmo Otto cuja lembrança me acorre quando penso na fartura de poesia que o perdulário Ovalle esfarinhou na conversa: “Um escritor pode também não escrever”. (Faltou talvez acrescentar que alguns bem obrariam se não o fizessem.)

Desde que saiu O Santo Sujo, não cessam de chegar-me insuspeitadas pérolas ovallianas. Ainda me resta espaço para encaixar uma delas, ligada a um dos mais conhecidos poemas de Bandeira, aquele em que o poeta deixa cair o queixo ante “as três mulheres do sabonete Araxá, às 4 horas da tarde”. Em mais de 80 décadas, inumeráveis leitores, eu e você inclusive, passaram por este verso sem que se acendesse a curiosidade de meu querido Edson Nery da Fonseca: mas por que “às 4 horas da tarde”? Ah, sorriu Bandeira, e contou que se tratava de um achado de Jayme Ovalle: cultor das mais sutis filigranas do erotismo, seu amigo sabia que a mulher, tendo se banhado às 9 da manhã, “só às 4 da tarde vai estar no ponto para o amor”.

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