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A supressão dos jornais que falam de tudo é o sinal mais óbvio dos despotismos

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

07 Novembro 2018 | 02h00

A pergunta é impertinente. Ler um livro sagrado no qual só há o certo e o errado é uma coisa, ler um ensaio político de um partido onde coisa semelhante ocorre, mas, ter a liberdade de escolher qualquer leitura, é algo moderno e ser por ela informado, é democrático. Thomas Mann dizia que o romance (essa gigantesca criação do mundo burguês) é fruto do “democratismo”: do dialogo permanente de liberdade com igualdade.

O jornal que vai para o lixo amanhã embrulhando o fato extraordinário de hoje, é – sem nenhuma dúvida – o símbolo maior da leitura aberta e individualista. Num sentido preciso, o periódico é, para muitos, um farol que ilumina um vasto oceano e, para outros, revela apenas uma nesga de luz.

Temos muitos jornais, mas, paradoxalmente, falamos pouco deles porque – diferentemente dos livros e relatórios oficiais e científicos – o jornal fala de tudo. Ele é um informante daquilo que ocorre nos grande centros urbanos e, antes dos telefones celulares, era um balizador de comportamentos: um importante mapa comportamental. Nele, encontramos estampados nossas vergonhas, heroísmos e sofrimentos; nossas conquistas e atrasos. Hoje, o jornal tem balizado os fatos maquiados (fake news) e nele temos prova dos rompimentos impensáveis com as rotinas (crimes, escândalos, acidentes, aventuras, etc...) à sua reafirmação como fazem prova os “cadernos” sobre a cidade, a política, a alta sociedade, as artes, a economia e o esporte. Em suma, “o que vai pelo mundo”, dividido nas categorias pelas quais a nós, como um sistema cosmológico, tomamos como fundamental para o nosso modo de pensar.

O jornal e o jornalismo rotineiro ou de ocasião são um importante instrumento de orientação sociopolítica e seus profissionais são fundamentais com observadores de nossas percepções do mundo. Alguns presumivelmente atados aos fatos (repórteres que descrevem abrindo mão do interpretar); outros, com a obrigação de interpretar mais do que narrar. A esta simplória divisão interna, contudo, intromete-se a incapacidade humana de escapar de si mesma de modo que, mesmo quando descrevemos, interpretamos e, mesmo interpretando, descrevemos.

É impossível não tomar partido. O velho e sábio adágio atribuído ao historiador romano Caio Cornélio Tácito – “sine ira et studio” (sem ódio ou condescendência) – foi proclamado justo pela nossa disposição em tomar partido. Quando se diz que não há raiva ou pressuposto, já estamos tomando um partido a ser visto como a busca da neutralidade, das terceiras margens dos rios acentuadas por Guimarães Rosa. Coisa complexa nas guerras, mas igualmente estruturantes da nossa capacidade de compreender e perdoar.

Exprimindo sem querer, mas querendo, os valores que os engendraram, os jornais diários acabam nos mostrando “quem estamos lendo”. Se vamos ao seu editorial, lemos a sua opinião. Se vamos às páginas que fazem o jogo do poder, temos em pílulas informações irônicas sobre os poderosos; se, porém, vamos aos seus cronistas, encontramos tentativas de distanciamento dos becos sem saída do mundo diário ao lado de muitas maluquices, como é o meu caso.

É quando sabemos quem estamos lendo, pois, na crônica, há o espaço para o reflexão que permite consenso, dissenso ou recusa. Ali há também o sermão e o conselho, que as páginas do próprio periódico, precisamente por ser periódico, têm dificuldade em aquilatar. No fundo, o jornal procura acasalar a seu modo evento e estrutura, algo que as sociedades humanas se obrigam a fazer desde que se descobriram os contrastes entre o acreditar e o observar, o sentir e o explicar...

Viva os jornais que falam de tudo. Não é por acaso que sua supressão é o sinal mais óbvio dos despotismos. O jornal nos ajuda a saber quem estamos lendo. Tal como ocorre com o sabe com quem estamos falando. Um assunto para outro dia...

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