Sábado mágico em Pinhal

Pensando bem, foi um dia mágico. Saí do hotel em Pinhal, ou Espírito Santo do Pinhal, para caminhar, e me vi envolvido por uma atmosfera que tinha ficado no passado, a calma e o vazio do sábado, ruas desertas, portas fechadas. Silêncio, sabadão mesmo, quando as pessoas se recolhiam depois do almoço para reaparecer na sessão do cinema à noite. Momentos de tranquilidade e contemplação. Tinha perdido esse clima, dentro de mim ele não existia mais. No entanto, por momentos recuperei.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2010 | 00h00

Cheguei ao Theatro Avenida, assim com H, um prédio restaurado, após 30 anos fechado. Recuperado, foi devolvido à sua função verdadeira. Como não pensar nos muitos teatros, cinemas, casarões históricos demolidos pela insensatez e substituídos por igrejas, supermercados, estacionamentos que vêm caindo impiedosamente por este Brasil?

Antes de entrar no teatro, para ouvir Moacir Amâncio, um pinhalense, vieram me pedir: "Você se incomoda de visitar a Delma, leitora fanática, que admira todos vocês e não pode sair de casa?" Fui. Delma, de 80 anos, sentou-se na cama, me abraçou e me abençoou: "A coisa que eu mais queria era ouvir meus escritores. Leio a crônica do Estadão, mas queria ouvir, ver. Veja, não posso sair!" Conversa rápida e mais bênçãos, imaginem, ir ao encontro de uma leitora e ser abençoado pelo que escrevemos? Era uma tarde em que as coisas simples e plenas aconteciam aos borbotões.

De volta, comecei a falar. Falo caminhando, gosto de olhar a plateia. Na primeira fila, uma garotinha solitária, de riso aberto e bloco na mão, aguentou duas horas e vinte de fala e perguntas. As pessoas em geral evitam a primeira fila, talvez para poder sair sorrateiramente se a coisa chatear. Logo depois, minha garganta travaria. A mãe de Maria Julia se aproximou acompanhada de uma morena lindíssima, olhar brilhante, riso expansivo, voz sensual, inteira vestida de preto. Patrícia Correia Françoso, arquiteta e artista plástica. No domingo, ela estava no palco representando. Não vi, já tinha regressado. O escritor Ronaldo Cagiano, contista e especialista na literatura brasiliense, viu e ficou arrepiado. Aquela bela morena, talvez com 30 anos, é cega há mais de 7 e mantém o rosto iluminado, faz coisas, cria, irradia. Exuberante. Fiquei com vergonha de minhas minúsculas reclamações, uma dor nas costas, uma coriza, um desânimo, o cabelo que cai, a audição que diminui. Dois minutos diante de Patrícia e saí restaurado, novo.

Sincronicidades. Um dia antes, em São Paulo, Lygia Fagundes Telles na Bienal do Livro falou de seus encontros com Monteiro Lobato e citou um nome importante e esquecido, o de Edgard Cavalheiro, biógrafo de Lobato. Lygia mostrou uma foto de Monteiro na casa dela, em um aniversário de juventude, ao qual o escritor fez questão de comparecer com imenso buquê, para agradecer a visita à prisão que a adolescente universitária ousou, desafiando Vargas. Cavalheiro estava também com Lygia naquele fim de tarde. As coisas foram se ligando.

No dia seguinte, eu estava em Espírito Santo do Pinhal no Primeiro Pin Pin de Literatura. Pin Pin por causa de Pinhal e Pindamonhangaba que estavam unidas para o acontecimento. Na última hora, Pindamonhangaba caiu fora, deixou a vizinha sozinha. Quando se trata de cultura, poucos prefeitos são abertos, receptivos. Azar de Pinda!

Acontece que Pinhal, cidade pequena, 42 mil habitantes, encravada nas montanhas a caminho de Minas Gerais, é uma graça, com vários casarões centenários conservados. Menotti Del Picchia registrou numa crônica sobre a cidade em maio de 1930, no Jornal do Commercio: "cidade garbosa: bungalows, palácios, bairros novos, enorme prédios... No lar rico e fidalgo da família Florence - um palacete de tal gosto que poderia figurar numa de nossas mais aristocráticas avenidas , tive contato com cultos espíritos." O Pin Pin começou como embrião da comemoração do centenário de Edgard Cavalheiro, que nasceu lá em 1911 e cuja memória a cidade decidiu resgatar.

Nascido de família humilde em uma fazenda, Cavalheiro formou-se em Direito, foi jornalista, biógrafo, editor. Inesquecíveis as antologias que organizou, como as Obras-Primas do Conto Universal, do Conto Brasileiro, do Conto Moderno, do Conto de Humor, da Lírica Brasileira e, enfim, a esplêndida biografia de Lobato. Em Pinhal, Cavalheiro recebia Julio de Mesquita Filho, José Lins do Rego e Menotti Del Picchia. Agitava culturalmente. Foi fundador da Câmara Brasileira do Livro e um dos criadores do Prêmio Jabuti. A memória de Cavalheiro (atenção, Câmara Brasileira, o que se vai programar?) tem em João Batista Rozon o seu guardião, na Casa do Escritor Pinhalense. Por que a Câmara não entra como parceira do Pin Pin em 2011? Pinhal é pequena, todavia mantém, periodicidade irregular, um suplemento cultural de 16 páginas, em cores, formato tabloide. Porque há pessoas como José Oswaldo Cardoso e Luiz Gonzaga Tessarine que sonham. Tivessem todas as cidades suplementos como esse O Leitor Pinhalense, a cultura seria outra. Há um Brasil oculto se movendo.

A família Forence estava na plateia. José Geraldo me entregou seu livro de contos Casa Velha e Elvira, uma cópia da crônica de Del Picchia. De repente, lembrei-me, estive com José Geraldo na Feira de Frankfurt em 1994, dedicada ao Brasil. Acasos? Terminei o sábado com melancolia. Fomos ao bar Pauliceia, uma das tradições na cidade, aberto em 1893. Belas luminárias, mesas de época, balcão de granito. Ali, em tempos áureos, os negociantes de café se encontravam, faziam negócios, dali se irradiavam para a praça as músicas e as dedicatórias: alguém oferece a alguém como prova de amor. Ali havia um canto onde o bicheiro aceitava suas apostas. A cidade viveu em torno do Pauliceia por 117 anos. Foi quando soube que eu participava da penúltima noite de vida do bar. No domingo, dia 15, ele fechou as portas sob pressão econômica. Pauliceia agora vai ser loja.

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