Fabio Motta/AE
Fabio Motta/AE

Ruy Castro: 'Nenhum escritor do Brasil lutou tanto pela liberdade de expressão'

Autor da biografia 'O Anjo Pornográfico' participa das homenagens a Nelson Rodrigues

Paula Carvalho - estadão.com.br,

22 de agosto de 2012 | 17h32

O escritor e jornalista Ruy Castro esmiuçou a vida de Nelson Rodrigues para escrever a biografia O Anjo Pornográfico, lançada em 1992. Ruy também realiza neste ano a curadoria do projeto Nelson Rodrigues 100 Anos, do Sesi-SP, que promove discussões, leituras dramáticas e montagens de textos do autor.

Durante a leitura de O Anjo Pornográfico, é impossível não relacionar o que Nelson produziu enquanto dramaturgo e jornalista e a sua própria vida, também marcada por tragédias - dentre elas, a luta contra a tuberculose em Campos do Jordão, o assassinato de seu irmão Roberto e a queda do edifício que matou outro irmão, Paulinho, sua mulher, filhos e sogra. Ruy conversou com o Estado por email sobre a suas descobertas como biógrafo de Nelson.

O que mudou da sua opinião em relação a Nelson depois de estudar o seu trabalho e conversar com tantas pessoas próximas a ele? Deu para formar uma ideia clara de quem é Nelson Rodrigues?

Eu já o admirava como criador e passei a admirá-lo também como homem. Nenhum outro escritor brasileiro lutou tanto pela liberdade de expressão e pelo direito de qualquer um escrever e pensar como quiser. Ele devia saber, pois ninguém foi mais censurado (seis peças interditadas, uma delas, Senhora dos Afogados, por seis anos; outra, Álbum de Família, por 22 anos!) e viu grandes intelectuais brasileiros, como Alceu Amoroso Lima, ficarem contra ele e a favor da polícia.

Em um texto para o Estado de 28/4/1989 você diz que Nelson Rodrigues "leu meia dúzia de livros, se tanto, na vida". Esse fato confere? A inspiração para o seu trabalho veio mais de sua experiência de vida ou de suas leituras?

Em 1989, eu ainda não tinha feito O Anjo Pornográfico, que é de 1992, e não conhecia tão bem o Nelson quanto passei a conhecer. Naquela época eu ainda acreditava no discurso anticultural dele próprio, que dizia que tinha lido pouco - talvez para valorizar seu lado intuitivo de criador. Na verdade, Nelson leu muito mais que meia-dúzia de livros. Conhecia todo o Eça, todo o Dostoievski (os russos, de modo geral) e, em teatro, conhecia de sobra os dramaturgos gregos, o Shakespeare e o Eugene O’Neill (tudo em tradução, naturalmente) - e, a partir de certa época, o próprio Freud. Mas é inegável que sua implacável observação da vida é que conferiu estofo ao seu teatro.

Desde a morte de Nelson, o mundo tornou-se bem mais dinâmico e mais liberal - certos tabus daquela época são hoje tratados de forma mais natural. O que ainda choca na obra de Nelson? Por que ela ainda é atual?

Sim, certos tabus são tratados hoje de forma mais natural. Mas já passamos a admitir em nossas famílias o incesto, que abunda em Álbum de Família? E já é possível matar os próprios filhos, como faz a protagonista de Anjo Negro?  

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