Ruy Castro estréia na ficção com "Bilac Vê Estrelas"

Se o parnasianismo era a religião oficial das letras brasileiras no início do século 20, o poeta Olavo Bilac era seu sumo pontífice. Seus versos, lapidados com o capricho de um ourives, provocavam palpitações nos decotes da belle époque e frisson nas mais empedernidas virtudes que perambulavam pela Rua do Ouvidor. A literatura era o sorriso de uma sociedade otimista que abria os braços para o futuro e cuja tradução mais forte eram as reformas de Pereira Passos, que prometiam transformar a então Capital da República na Paris dos trópicos. Encontro no Rio antigo - Foi na calçada da Rua Gonçalves Dias em frente à confeitaria Colombo que o jornalista Ruy Castro encontrou o poeta e começou a escrever Bilac Vê Estrelas (150 págs., preço a definir), sétimo volume da coleção Literatura ou Morte da Companhia das Letras, que chega às livrarias no dia 4. Enquanto as outras obras da série focalizaram escritores estrangeiros (Sade, Rimbaud, Borges, Stevenson, Moliére e Kafka), Ruy não precisou se afastar muito do apartamento onde mora no Leblon para achar o seu. Os personagens o esperavam nas esquinas do centro antigo do Rio.Bilac Vê Estrelas é um texto de ficção com sotaque jornalístico. Antes de sentar-se para escrevê-lo, Ruy devorou livros de história e a obra completa de Bilac. Ficou encantado, confessa, com um autor do qual alimentava ojeriza desde os bancos escolares. "Os versos podem ser lidos em voz alta e há, além disso, muito erotismo neles." Bilac entrou no lugar de Lima Barreto e João do Rio, os outros dois escritores cogitados pelo jornalista para sua primeira aventura ficcional. O Príncipe dos Poetas, aos 38 anos, do alto de seus 1,80m e gozando de inexcedível reputação, desfilava sua prodigiosa inteligência e elegância parisiense pelas ruas do Rio. Gostava de posar de perfil em razão de um ligeiro estrabismo, que procurava ocultar com o pincenê. A cidade vivia um grande surto modernizador sob a presidência de Rodrigues Alves e era mais francesa do que nunca. Bilac pisa o macadame das ruas, mas sonha com a amada Paris. O Brasil parecia pôr em prática sua vocação de país do futuro com Santos Dumont conquistando os céus da Cidade Luz. O charuto do Zé do Pato Um pequeno engano leva o poeta a procurar o amigo José do Patrocínio, o inflamado abolicionista e jornalista, esquecido e desprestigiado naquele ano de 1903. Bilac o encontra às voltas com a construção do dirigível Santa Cruz, um imenso charuto verde-amarelo que cobriria novamente de glória seu inventor. Mas Patrocínio não dispõe de recursos para colocar nos ares sua invenção. Em uma viagem a Paris, Bilac encontra ocasião para ganhar um aliado importante para o projeto do amigo. Em um jantar no palacete do conde D´Eu e da princesa Isabel em homenagem a Santos Dumont, o poeta persuade o pai da aviação a endossar os planos de Patrocínio. Ele só não podia imaginar que, naquele mesmo jantar, uma dupla de aeronautas franceses tem a idéia de roubar o projeto do dirigível. Os dois colocam no encalço de Bilac uma cortesã chamada Eduarda. Além de irresistível, ela conhece todos os versos do parnasiano, e por meio de sedução consegue chegar a Patrocínio. Maior conquista do século - Além do trio histórico formado por Bilac, Patrocínio e Dumont, figuram no livro outros personagens reais da época, como os caricaturistas Calixto, Raul Pederneiras e J.Carlos, Rui Barbosa, Medeiros e Albuquerque e Capistrano de Abreu. Até Machado de Assis faz uma pontinha. Mas não é só. Em Paris, Bilac distraído tromba com Gertrude Stein e lhe arranca uma chuva de palavrões enquanto se abaixa para recolher as frutas que ela levava para dois jovens artistas, Picasso e Juan Griss, pintarem naturezas-mortas. O fim da história coincide com a chegada triunfal de Santos Dumont ao Rio, onde foi recebido com festa por milhares de pessoas. Na vida real, Patrocínio havia patenteado em 1900 "um aparelho propulsor de aerostato", além de ter criado seu próprio Aerostato Santa Cruz. Seu projeto, ele acreditava, seria "a maior conquista do século". Os planos de Zé do Pato, como era depreciativamente chamado pelos detratores, não dariam certo e se tornariam motivo de chacota. Ruy Castro pensava em debutar na ficção há cerca de cinco anos. Ele admite ter sido rigoroso em relação aos acontecimentos e datas históricos, vício adquirido depois de Chega de Saudade e das biografias de Nelson Rodrigues e Garrincha, mas faz questão de ressaltar o prazer conferido pela liberdade de colocar o que quiser na boca de seus personagens. "É até chato dizer, mas eu me diverti muito escrevendo minha primeira obra de ficção." Depois de passar 2000 ao lado do autor de Via Láctea, Ruy passa a se dedicar agora à edição da correspondência de outro poeta, Vinícius de Moraes. Uma nova biografia? Embora diga ter quatro ou cinco nomes em mente, o jornalista prefere guardar segredo.

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