Ruy Castro deixa mãos marcadas para posteridade

As mãos do escritor Ruy Castro estão eternizadas, ao lado de Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Maria Bethânia e muitos outros artistas fundamentais à cultura brasileira. Ele as deixou impressas na Toca do Vinícius, misto de loja e museu da música popular brasileira, que funciona há 13 anos em Ipanema. A festa, marcada para as 19 horas de domingo, entrou noite adentro, com show de Marcos Sacramento (cujo disco mais recente, Memorável Samba, tem repertório da época de ouro do rádio) e a banda de Ipanema, promovendo um carnaval fora de época. Ruy chegou pontualmente às 19 horas. "Sobrou cimento, por isso me chamaram", brincou. "É uma conspiração municipal para me matar do coração. Fui convidado para sócio honorário do Flamengo, recebi o título de cidadão carioca e, há uns dois carnavais, fui reconhecido pelo Rei Momo na rua. Agora, com esta homenagem, já posso morrer tranqüilo. Fiquei pensando em outros que deixaram as mãos aqui... Por exemplo, as mãos de Pixinguinha eram finas, compridas, elegantes. É um detalhe que fica para a posteridade." O proprietário da Toca, Carlos Alberto Afonso, conta que a homenagem data dos anos 60, quando a pizzaria Pizzaiolo, que funcionava na mesma rua, então Montenegro, hoje, Vinicius de Moraes, era reduto de boêmios e artistas das imediações. "O dono, Joaquim Campos, decidiu homenagear seus clientes e, por extensão, os músicos que agitavam as redondezas. A primeira foi Maria Bethânia, que morava aqui por perto", contou ele. Depois vieram Elis Regina, Leila Diniz, Jardel Filho, Aldir Blanc, Braguinha, Emilinha Borba, Ferreira Gullar e muitos outros. Quando a Pizzaiolo fechou, Carlos Alberto ganhou a placa com as mãos de Vinicius de Moraes. "Então, retomei a tradição. Aqui é um centro de referência da cultura carioca e todas essas iniciativas são instrumentos para esse objetivo." Castro cabe perfeitamente nesse perfil. Jornalista desde os anos 60, começou a escrever livros nos 80 e desde então lançou mais de 20, entre biografias (de Mané Garrincha, Nelson Rodrigues e, a mais recente, Carmem Miranda), memórias ( Ela É Carioca, Uma Onda Que se Ergueu no Mar e Chega de Saudade, com a história e casos da bossa nova) e até ficção. "O assunto é sempre o Rio de Janeiro, mesmo que os personagens venham de outros lugares. Esta é a magia da cidade. Todos convergem para cá e se misturam, sem guetos", filosofa Ruy Castro, por acaso, mineiro de Caratinga, que só veio para o Rio aos 6 anos. "A gente se locomove no cenário que conhece e não há outro lugar que me empolgue tanto como o Rio." Cariocas, da gema ou adotados, como ele, foram prestigiar. Estavam lá o compositor Carlos Lyra e a filha Key, a bela Lygia Marina (musa de Tom Jobim que fez música com seu nome e mulher de Fernando Sabino), o músico Ricardo Villas (carioca nato que hoje vive entre Rio e Paris) e uma multidão que tomou as calçadas dos dois lados. O cantor Marcos Sacramento, nascido em Niterói e morador do Rio há mais de 20 anos, escolheu um repertório de Carmem Miranda para fazer o público dançar e cantar junto. Num longo discurso, Carlos Alberto declarou sua satisfação. Quando abriu a Toca do Vinícius, pretendia reunir um acervo da memória da cidade, em geral, e de Ipanema, em particular. Hoje tem preciosidades, como o manuscrito de Samba da Bênção (de Baden Powell e Vinicius de Moraes) e a fita master do disco Canção do Amor demais (aquele em que Tom ensinou versos a Elizete, na Nascimento e Silva 107). "Quero criar um museu, um centro de informações sobre a cidade", avisa. "No próximo domingo, será a vez do compositor francês Henri Salvador, que também é um apaixonado pelo Rio."

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