Henrique Cardozo/Divulgação
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Ruy Castro chama Roberto Carlos de 'censor nato'

Escritor processado pelo cantor nos anos 1980 participou de debate no Festival Internacional de Biografias, em Fortaleza

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2013 | 21h37

De tanto que se fala em Roberto Carlos, que proibiu sua biografia escrita por Paulo Cesar de Araújo e, claro, não veio para o 1.º Festival Internacional de Biografias, em Fortaleza, a organização resolveu convidar o cover oficial do rei para um show. A apresentação está prevista para a noite de sábado, antes do show de Jorge Mautner e Jards Macalé. No debate realizado nesta sexta-feira, o jornalista e biógrafo Ruy Castro, que chegou a ser processado por Roberto Carlos nos anos 1980 porque fez um perfil que desagradou o músico, disse que ele é um “censor nato e hereditário que censura até si próprio." "Ele censurou o primeiro LP que ele gravou, não canta e não deixa que ninguém cante perto dele Quero Que Tudo Vá Para o Inferno", afirmou.

Assim como Paulo César de Araújo, Ruy Castro teve uma biografia recolhida das livrarias, com a diferença de que, depois de um processo e um acordo financeiro com as filhas de Garrincha, que custou à Companhia das Letras R$ 900 mil, fora as despesas que a editora teve nos 11 anos de duração do processo, a obra voltou para as prateleiras. O mediador Mario Magalhães brincou: “E como diz o Djavan, os biógrafos estão cheios de dinheiro”. “Eu trocaria todos os meus direitos autorais dos últimos 25 anos pelos royalties de uma única música de sucesso do Djavan, que eu não sei qual é porque não conheço a obra dele”, respondeu o biógrafo.

A defesa que Chico Buarque fez do direito dos herdeiros de Garrincha cobrarem direitos autorais na participação das vendas do livro de Ruy Castro, em artigo publicado no jornal O Globo, também foi comentada. Magalhães lembrou que Chico Buarque é autor de música que cita o jogador, e que não pagou nada por ter feito isso. “Do Roberto Carlos se espera qualquer coisa, mas nunca pude imaginar que Chico Buarque pudesse fazer o que ele fez. Aquele texto dele é lamentável. Ele errou de diversas maneiras. Ele disse que só a própria pessoa pode contar sua história. Imagine Chico Buarque contando a própria história e errando daquele jeito. 'Não dei entrevista para Paulo César de Araújo', e o Paulo vai e prova. Ele foi minha fonte no livro sobre o Garrincha e disse que as filhas dele foram a Roma visitar o pai, e elas nunca foram. Ou seja, o Chico Buarque é uma péssima fonte de informação sobre si mesmo.”

Sobre o significado da palavra intimidade, tão em debate, e o grupo Procure Saber, Castro disse: “Não sei se eu me permitiria ser fotografado pelado na capa de um livro meu com minha mulher e meu filho, como Caetano fez num disco.” Para o escritor, os artistas entram no grupo “vítimas de um acordo feito entre Paula Lavigne e Roberto Carlos”. Ele explica: “Ela disse que se ele se juntasse a ela na guerra contra o Ecad e fosse fazer lobby em Brasília com ela, eles se juntariam a ele na guerra contra as biografias e com isso se formou essa frente única contra a liberdade de expressão. Eles não contavam que pudéssemos reagir e ser eficientes no uso da única arma que temos, que é a palavra.” Não contavam, também, que a opinião pública se voltasse contra eles. “Devem ter sentido quando viram que o povo brasileiro preferiu a liberdade de expressão e a biografia independente.”

Mais tarde, Ruy Castro voltou à questão da intimidade. “As pessoas que estão nos acusando de fofoqueiros estão achando que biógrafo é repórter de certas revistas, revistas essas especializadas em fofoca, que usam o trabalho de paparazzi, para quem eles já abriram as portas de suas casas para serem fotografados, deixaram a mostra a sua intimidade, já descreveram os tratamentos físicos de suas mulheres que as transformaram nas sereias que elas são e não fizeram nada contra essas revistas. Isso os ajuda a vender disco, ingresso de show. Biografia não pode.”

Um pouco antes do encontro, o escritor comentou que há pelo menos 10 anos a questão da biografia está na pauta de editores e biógrafos. “Mas finalmente chegou à opinião pública”, comemorou. Ele não estará em Brasília na próxima semana, quando será realizada uma audiência pública no Superior Tribunal Federal. Até se inscreveu para participar, mas não recebeu resposta. Ele defendeu a ida dos colegas Mário Magalhães e Paulo César de Araújo para que haja uma diversidade. Mas para ele, a questão já está decidida. “A conversa, agora, é sobre firulas jurídicas. Não se trata mais de mostrar para a opinião pública. Ela já sabe o que está em jogo.”, diz.

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