Rush, muito além do palco

Documentário sobre o trio canadense que vem ao Brasil em outubro é revelador. E ameaça conquistar até mesmo quem não suporta a banda

Diogo Salles, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2010 | 00h00

  

 

'Rush: Beyond the Lightes Stage. O documentário foi dirigido pelos mesmos cineastas de 'Iron Maiden: Flight 666'

 

 

 

 

 

 

Por que alguém faria um documentário sobre uma banda que, na época em que abria shows para o Kiss, ficava no quarto vendo TV enquanto Gene Simmons se entregava a todos os prazeres sexuais? Segundo o crítico Lester Bangs, essa seria a definição de "uncool". Ou de "nerds musicais", segundo Taylor Hawkins, do Foo Fighters. E é isso que o Rush sempre foi para o mainstream. Sem brigas, bebedeiras, afetações e quebra-quebra em hotéis, os pacatos integrantes do power trio canadense que toca no Morumbi em outubro eram a antítese de todos os clichês. Por outro lado, foram capazes de atrair uma legião de fanáticos que transformaram seus shows em cultos religiosos, ao mesmo passo em que eram endeusados por músicos medalhões. A fim de investigar esses contrapontos, chega em DVD o documentário Beyond the Lighted Stage.

Tendo sobrevivido ao punk, ao new wave, ao hair metal e ao grunge, o Rush sempre foi considerado um outsider no rock, sem hits de apelo radiofônico ou clipes na MTV. Da pouca atenção que recebia da mídia especializada, eram rotulados como "pretensiosos" e "ultrapassados".

Os vocais de Geddy Lee eram alvo de deboches, como "Mickey Mouse aspirando gás Hélio". Em Beyond the Lighted Stage, todos esses rótulos são triturados por figurões da cena roqueira, que se desmancham em elogios à banda. Billy Corgan (Smashing Pumpkins) busca interpretações filosóficas para o fato de o Rush ter sido tão subestimado. Mike Portnoy (Dream Theater) conta sua obsessão em reproduzir todos os compassos de La Villa Strangiato. O ator Jack Black traz um toque humorístico quando questiona se Neil Peart é mesmo humano.

Em momento de eloquência, Kirk Hammett (Metallica) os define como "os altos sacerdotes do metal conceitual". Juntam-se a eles Trent Reznor (Nine Inch Nails), Sebastian Bach (Skid Row), Matt Stone (o criador de South Park)... Todos fazendo fila para prestar reverência ao "Led Zeppelin canadense" (nas palavras de Gene Simmons). Outro momento revelador é quando a banda explica o fracasso do terceiro álbum Caress of Steel, que os colocou rumo ao cadafalso. Seguindo suas concepções musicais, ignoraram as imposições comerciais da gravadora (que exigia singles) e gravaram 2112, hoje considerado um dos discos conceituais definitivos do rock.

Neil Peart, uma influência citada por dez entre dez bateristas de rock, tem a chance de explicar por que sempre foi avesso às adulações dos fãs. E o filme é delicado ao tratar de sua tragédia pessoal ? com a perda de sua filha Selena num acidente automobilístico em 1997 e, menos de um ano depois, de sua mulher para o câncer. Buscando respostas existenciais, Peart caiu na estrada por dois anos, percorrendo 90 mil km de moto pelo mundo ? experiência posteriormente revelada no livro Ghost Rider. Com isso, o Rush entrou num hiato que levantava suspeitas sobre o fim da banda.

Mas, em 2002, eles renasceriam com o disco Vapor Trails e chegariam ao Brasil pela primeira vez. A poucos meses de voltar ao País com a turnê Time Machine, Beyond the Lighted Stage não chega apenas para saciar o apetite dos fãs. É um retrato sincero de uma banda marginalizada pela "intelligentsia" do rock e também uma aula de humildade, amizade e dignidade para rock stars egomaníacos.

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