Rumo ao futuro

Palco da nova peça do Teatro da Vertigem, o histórico Teatro Taib se mobiliza em busca de R$ 12 milhões

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

21 Outubro 2012 | 03h10

O novo espetáculo do Teatro da Vertigem, Bom Retiro 958 metros, lança luz sobre a história desse bairro. As tantas levas de imigrantes que recebeu no último século, as muitas culturas que ali convivem e se misturam. Está na peça a imagem de uma região que fervilha durante o dia, mas se vê esquecida quando chega a noite. Lugar em que as lojas e galerias comerciais são reluzentes. E os prédios históricos, antes gloriosos, seguem apagados.

Pródigo em resgatar lugares do esquecimento, o grupo do diretor Antônio Araújo já encenou trabalhos em um presídio desativado, em um hospital, no leito do Rio Tietê. Agora, são ruas, quarteirões inteiros da região central que estão em foco. Há, porém, um lugar específico que perdura na memória dos espectadores por muito tempo após o término da encenação: o antigo teatro Taib.

A sala de espetáculos foi um importante centro de contestação à ditadura militar. Recebeu montagens e shows memoráveis. Ficava no térreo do edifício do Instituto Cultural Israelita Brasileiro - Icib. Hoje, está desativada. Começam, contudo, a ganhar ímpeto os planos de resgatá-la. No dia 28, haverá uma sessão do espetáculo do Vertigem em benefício da entidade. Uma das medidas em curso para recuperar esse edifício histórico.

Eleita em maio, a nova diretoria do instituto se organiza para recolher recursos e apoios para ampla reforma. Orçada em cerca de R$ 12 milhões, a obra deve restaurar não apenas o teatro, como também os outros três andares da construção. "História é o que não falta ao espaço. O que a gente precisa agora é ativar essa história", diz Benjamin Seroussi, membro do conselho. De acordo com ele, setores dos governos do município e do Estado já foram incluídos nas discussões para revitalização. Doadores privados também devem participar. E a intenção, explica, é criar um centro cultural que extrapole os domínios da cultura judaica. "Não é possível desvinculá-lo de suas raízes, porém, ele agora tem de olhar para o mundo."

Seu programa ainda não foi completamente definido. Mas a intenção é que faça jus ao sentido de vanguarda e experimentação que sempre caracterizou a casa, comenta Jairo Degenszajn, diretor do conselho.

Terminada a 2.ª Guerra, a comunidade judaica do Bom Retiro reuniu-se para comprar um terreno. Era um desagravo aos 6 milhões de mortos nos campos de extermínio. A construção, que deveria simbolizar o renascimento do povo, estendeu-se por vários anos. "Demorou porque cada um ia doando o que podia. Todo mundo ajudou", conta Marina Sendacz, atual presidente do Icib e ex- professora da Scholem Aleichem, escola que funcionou no local por quatro décadas.

A inauguração do edifício - que ficaria conhecido como Casa do Povo - ocorreu em 1953. À época, servia de sede para o jornal Nossa Voz, para uma colônia de férias e para o colégio, que teve sua última turma na década de 1990. Em um passeio por seus andares, ainda é possível encontrar os rastros desse passado. O elevador quebrado. Sobras do laboratório de ciências, uma biblioteca onde um acervo de 5 mil livros em iídiche está guardado.

Não são essas, porém, as únicas raridades. Também estão lá milhares de fotografias que testemunham essa história, documentos, lembranças do engajamento político que foi a marca da Casa do Povo, entre elas uma coleção de revistas comunistas. "Os exemplares vinham da ex-União Soviética e, para escapar da censura, entravam no Brasil clandestinamente pela Argentina ou Uruguai", lembra Marina.

Tanto engajamento político fez do espaço um foco de resistência. Não eram apenas os judeus que se formaram no Scholem Aleichem, mas também muitos filhos de perseguidos políticos que foram acolhidos.

Aberto sete anos depois que o edifício, em 1960, o Teatro Taib viria a cumprir papel semelhante, sempre à esquerda no espectro político. As cenas finais da encenação de Bom Retiro 958 metros desenrolam-se justamente nos escombros dessa velha sala. Levam o público para testemunhar goteiras, estofados arruinados, paredes carcomidas: vestígios de uma época que acreditamos ter acabado, mas que persistem, insepultos.

A Casa do Povo contrapunha-se ao endurecimento político no País e assumiu posição dissonante quanto ao crescimento do movimento sionista. Não compartilhava da posição expansionista de Israel. Manteve-se sempre aguerrida aos seus valores ideológicos - coerência que talvez ajude a explicar seu relativo isolamento e a atual situação de degradação.

Antes de se instalar na Rua Três Rios, um embrião da Casa do Povo funcionou na Rua José Paulino, em 1920. Tinha o nome de Zukunft (futuro). O tempo fez mudar a política, os endereços, os frequentadores. Mas, curiosamente, tantos anos depois, o futuro volta a estar no horizonte.

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